6.21.2009

Transcaetano À vontade aos 66 anos, Caetano fala de drogas e velhice

À vontade aos 66 anos, Caetano fala de drogas e velhice: “Mulher é adulto, homem é criança”

Caetano fala de sexo, dro­gas, Bra­sil, feminismo, casa­men­to, separação, ve­lhice, pai, filhos, loucura, baladas, mor­­te e do craque de futebol que o país perdeu para a música

Texto por Fernando Luna e Nina Lemos Fotos Fernando Young

Caetano Veloso fala. Quando era adolescente, chegava a passar 40 horas seguidas tagarelando. Ele ri da própria verborragia. Aos 66 anos, ainda tem o que dizer. E continua gostando de uma conversa.
Não é diferente quando recebe a reportagem da Tpm, em um hotel no Rio de Janeiro. Mas, depois de uma hora de entrevista (a quinta do dia, e a esta altura o dia já virou noite), começa a se mexer. “Estou preocupado com o Zeca, ele não está se sentindo bem”, explica.
Antes mesmo de a conversa ter começado, em plena troca de turno de jornalistas e fotógrafos, um assistente soprara para Caetano: “Zeca ligou perguntando se tinha um substituto para água de coco, e eu disse que não”. Tsc, tsc, tsc. “Mas claro que existe, fala pra ele tomar Pedialyte”, receita o baiano, evocando o santo remédio protetor das crianças desidratadas.
É, ninguém é pai de três filhos à toa. Além de Zeca, 17 anos, e Tom, 12, do casamento com Paula Lavigne (de quem está separado desde 2004), Caetano tem ainda Moreno, 36, de sua união com Dedé Gadelha. Moreno, aliás, funciona como uma espécie de água de coco para o pai, um tipo de, vá lá, Pedialyte artística, capaz de reidratar a música de Caetano.
Para começar, foram seus amigos Pedro Sá, Marcelo Callado e Ricardo Dias Gomes que, desde o disco Cê, em 2006, deram street cred às ambições mais roqueiras de Caetano. Depois, o próprio Moreno faz a direção de produção deste Zii e Zie – sim, como você leu em todos os jornais, o título quer dizer “tios e tias” em italiano.
Mas Caetano não paga de tiozinho, não. Nem junto à turma do filho, agora Banda Cê, todos ali nos 30. “Quem foi jovem nos anos 60 e continua produtivo em geral tem algo como eu tenho”, arrisca. Esse algo pode ser definido como inquietação.

Revolução permanente
Pensando bem, isso não é tão comum assim. Mas, como define o amigo e parceiro Jorge Mautner no documentário Palavra (En)cantada: “Tropicalismo é a revolução permanente”. Pois Caetano é o tropicalista. E desde que cantou “Alegria, Alegria”, no III Festival da MPB, em 1967, tenta-se explicar o que, afinal, isso significa.

De volta ao Brasil, em 1972, desembarcando no aeroporto do Galeão, no Rio, depois de três anos de exílio em Londres

Talvez a melhor resposta tenha sido formulada por ele mesmo, ao reagir às vaias, no ano seguinte, quando cantou “É Proibido Proibir”. “Nós tivemos coragem de entrar em todas as es­truturas e sair de todas”, vociferou Caetano, dividindo méritos com Gil.
Entrar e sair de todas as estruturas resume a trajetória de Caetano. Quando acreditaram que ele só queria saber de banquinho e violão, sacou as guitarras. Quando imaginaram que música de protesto era a única saída num país sob ditadura, ficou “Odara”. Quando reconheceram que era chique, mandou “Um Tapinha Não Dói”. Quando queriam confinar o cantor à música, opinou sobre o Brasil. Quando todo mundo entendeu que ele era neguinha, engrossou a voz para dizer: “Eu sou homem/ pelo grosso no nariz”. Quando emendou discos elegantes com standards em espanhol e em inglês, logo quebrou tudo com uma banda de garotos. Quando Radiohead parecia moderno ao permitir que internautas decidissem o preço de In Rainbows, inventou o blog Obra em Progresso, em que os internautas acompanhavam e opinavam no disco Zii e Zie propriamente dito.
E, quando parecia que a entrevista havia acabado antes de terminar (a doença do Zeca, lembra?), Caetano sugere continuar o papo no dia seguinte. Ainda faltava falar de muita coisa. Caetano Veloso fala.

Tpm. Por que gravar agora “Lobão Tem Razão”, oito anos depois de ele dizer para você “chega de verdade”, na música “Mano Caetano”?
Caetano. A música do Lobão me toca como um todo. Mas esse “chega de verdade” é forte demais para mim. Fiquei admoestado, senti que alguma coisa teria que mudar em mim. É uma mania de verdade. A questão não é de ser verdade, é de precisar tanto dizer. A frase ainda tem a mesma repercussão na minha cabeça. Ele tem razão porque não consegui melhorar em nada quanto a isso.

Gil e Caetano, em 1967, ano em que suas canções se classificaram no Festival da Record. Gil com “Domingo no Parque” e Caetano com “Alegria,Alegria"

velhice deixa você mais inflexível? A velhice traz uma espécie de teimosia. Mas em mim percebo mais um descompromisso. Quando se é mais jovem, se toma cuidado para não ser desaprovado. Está se colocando na vida, no mundo. Tem um esforço instintivo para não estragar essa inserção.

O quanto era importante para você a aprovação dos outros? Era importante, ainda é. Porém, na velhice, é aquele paradigma de A Velha Dama Indigna, do [Bertolt] Brecht: uma senhora direita, com filhos e netos, que resolve não ter limitação e começa a fazer o que quer. Já vivi tudo, não devo mais nada a ninguém, o que vou esconder agora? Nada.
Como está sendo a entrada na velhice? Há muitas coisas objetivas. Não usava óculos e agora ando de óculos, senão fica tudo fora de foco. Se tomar um talho, na minha idade demora a cicatrizar. Meus cabelos, que eram cacheados e pretos, não têm mais o cachinho e ficaram brancos.

Com Paula Lavigne e o filho Zeca, em Salvador, 1993

Se a mulher deixa o cabelo branco, todo mundo acha horrível. É verdade. Pessoalmente, gosto de mulheres com cabelo grisalho, acho bonito. Mas uma vantagem da mulher é que ela pode pintar o cabelo. Homem de cabelo pintado fica com cara de político babaca. Tem várias vantagens e desvantagens em ser homem e ser mulher, mas prefiro ter nascido homem.

Por quê? Não sei. Cresci no fim dos anos 40, anos 50, quando as mulheres não tinham mobilidade social nenhuma. Não podiam ir ao bar, sair sozinhas, sair à noite. Era chato para mulher. Eu tinha um pouco de pena das mulheres, era feminista quando criança. Mais do que sou hoje.

Por que ficou menos feminista? Porque também cresci, amadureci, aprendi as coisas da vida [risos].
E as mulheres continuam sem poder envelhecer. Ainda é comum se achar que a mulher deve ser objeto de apreciação, que não pode ter rugas e precisa ser jovem. Isso também está atrelado à biologia, porque os sinais para reprodução são os da mulher jovem. A mulher, depois de uma certa idade, não se reproduz mais. Então, do ponto de vista animal, não precisaria mais produzir excitação sexual. Já o homem não. O homem vai até o fim. Não é mera tolice homens procurarem moças jovens, é uma coisa um pouco hormonal. Não gosto de ser preso a biologia, mas é assim. Gosto muito de mulheres jovens, mas também de mulheres velhas e mulheres de meia-idade.

Você escreveu uma música sobre velhice logo depois que seu pai morreu, “O Homem Velho”, em que definia: “O homem velho é o rei dos animais”. Eu estava ficando maduro, ficando velho. Mas muito menos ­do que hoje [risos]. Achei bonito dizer aquilo como uma lembrança de meu pai. Ele era um homem muito altivo, mas suave e elegante. Muito bom, muito equilibrado, muito respeitado na cidade inteira. Então, era um entusiasmo afirmativo diante dessa figura patriarcal benigna.
Existe alguma cena que resuma a relação de vocês? Tem uma muito forte que sintetiza tudo. No dia em que saí da prisão [em 1969], a soltura não foi bem uma soltura. Quando Gil e eu chegamos a Salvador no avião da FAB, acompanhados do chefe da polícia federal do Rio de Janeiro, tinha uma ordem de prisão antiga. Aí fomos jogados numa cela de novo. Só soltaram a gente à noite. Saímos sem dinheiro, meio apavorados. Quando chegamos à minha casa, só tinha Nicinha, minha irmã de criação mais velha. Meus pais e meus irmãos tinham ido para o aeroporto e não sabiam que a gente tinha sido detido de novo [por mais algumas horas]. Quando vi a casa toda vazia, fiquei louco. Louco, louco, uma coisa terrível. O mesmo negócio que senti quando tomei ayahuasca, uma coisa que não dava na cabeça. Corria de um cômodo para o outro, gritava, chorava. Pensei: “Pronto, não existo mais”. Aí chegaram as pessoas, meu pai na frente. Quando ele me viu, falou assim: “O que é isso? Não me diga que você deixou esses filhos da puta te botarem nervoso?”. Fiquei bom. Na hora! Abracei ele e comecei a chorar. Foi uma ordem. Se meu pai não tivesse chegado, estava louco até hoje.
Seu pai sempre passou essa segurança? É. Ele falou “filhos da puta”, e não era de xingar, nada, nunca. Mas naquela hora ele falou mesmo. Aquilo foi tão forte. Como ele tinha desprezo pela ditadura militar, sentia orgulho por eu ser definido como inimigo.

E você, é muito diferente ser pai aos 30 e aos 55 anos? Basicamente, não. Filho é a coisa mais intensa que há. Eu não queria ter filho. Dedé [Gadelha, primeira mulher de Caetano, mãe de Moreno] e eu tínhamos decidido não ter filhos. De repente me veio uma vontade, justamente no fim do exílio, pensando que voltaria ao Brasil. Dedé ficou alegre depois que chegamos e topou. Moreno nasceu, e aí mudou tudo.

Moreno é filho da geração hippie, filho de hippies. Ele podia tudo? Não. Vi muita gente confusa, permissiva, em relação a isso. Não foi meu caso.

É aquela história de saber o que dizer e o que não dizer na frente das crianças. Justamente. Lembro que Moreno entrou numa escola que era muito aberta. Na primeira reunião de pais e mestres, o diretor e os professores falavam como a escola tinha que ser atraente, agradável e interessante. Pedi a palavra: “Olha, acho que a escola deve ser chata. Tem um aspecto que a escola deve admitir de ser uma instância chata na vida da gente, e que isso é fundamental para as crianças”. Moreno depois veio me dizer: “Pai, tá todo mundo falando que você é o maior careta” [risos].

Sua escola era chata? Escola é chato. Mas gostava também, porque a gente encontra outras pessoas. E você tem umas tarefas a cumprir, tem que mostrar que aprendeu.

Ainda com cachinhos, em 1967, interpretando “Alegria, Alegria”, canção classificada em quarto lugar no Festival da Música Popular Brasileira, na TV Record

E você não gostava de futebol, o que deixa a escola mais difícil para os meninos. Hoje é um paraíso, comparado com o que era nos anos 50, 40. Moreno e Zeca nunca jogaram futebol, e nunca ninguém achou que eles eram veados por causa disso. Tom joga lá no Zico [CFZ, Centro de Futebol Zico]. No meu tempo, não existia você não jogar futebol. Era a mesma coisa que chegar de vestido franzido cor-de-rosa.

Você tentava jogar? Tentei. Peguei uma bola e fiquei treinando, assim, na parede. Tentei fazer um pouco de embaixadinha, levantar a bola e bater sem ser bicudo. Ficava jogando na rua, em Santo Amaro, e também no quintal enorme da casa. E pensei, sozinho comigo mesmo, que se quisesse jogar futebol seria um dos melhores jogadores que há. Mas não tinha a menor vontade.

Numa entrevista à Trip, você disse que poderia ser um gênio se tivesse se dedicado a isso. É a mesma coisa, né? Sabe que penso assim? É um absurdo isso [risos].

O mundo perdeu um Pelé e ganhou um Caetano. Aí vocês vão dizer que sou modesto, mas não tem comparação. Pelé é muito maior. Ele fez o negócio que tinha que fazer. Eu não.

Você não fez o que deveria fazer? Todo mundo tem um pouco essa sensação, eu tenho bastante.

­­E o que deveria ter feito? Alguma coisa para a qual tivesse uma vocação. Até tenho vocação para o que faço, mas ter o talento definido. Tenho talento definido para outras coisas que não fiz. Eu seria melhor para desenhar ou pintar, para fazer cinema ou para escrever.

Além do futebol. Para futebol não tenho talento. Deixei falar de Pelé, mas pensei assim: “Poderia jogar muito bem”. Vi que podia, mas não tinha interesse. Achava chato ficar trombando nos outros meninos. Eu era muito feminino. Subia no araçá [goiabeira] e ficava cantando a tarde inteira.

Os outros meninos achavam você muito esquisito? Me achavam meio assim, pouco masculino. Demonstravam às vezes, mas eu era muito amigo, muito inteligente para conversar, tinha muitos amigos na escola. Só uns meninos mais grosseiros que às vezes comentavam alguma coisa como “não é homem, não? Não joga futebol?”.

Em seu livro Verdade Tropical, você fala de hétero, homo e bissexualidade. Hoje essas definições são menos importantes? Pode ser sim. Também pode haver um grande retrocesso, existem muitos movimentos religiosos que apontam na direção oposta. Mas, no Ocidente moderno, houve uma ampliação do entendimento da sexualidade. Somos sexuais, e não heterossexuais ou homossexuais.

Este Zii e Zie é bem sexual, embora nem tanto quanto o anterior, Cê. Como está a sexualidade nesta chegada à velhice? Olha, para mim tem a mesma importância que sempre teve. Sou do time que acha sexo a coisa mais importante que há. Tipo Freud [risos]. Uma manifestação essencial de tudo.

Voltando ao que você deveria ter feito, por que você foi fazer música, então? Passividade total diante do que aconteceu. Tinha interesse em música, um conhecimento muito grande. O Alvinho Guimarães, que era um diretor de teatro de Salvador, ficou muito impressionado. Eu tinha uma capacidade de articulação bem parecida com a que tenho hoje. E ele me chamou para fazer a música da peça. Eu disse: “Não sei fazer música, eu falo sobre música”. Ele falou: “Tem que ser você, não tá tocando violão?”. Fiz, e todo mundo achou maravilhoso. Aí me apresentaram a Gil, que eu via na televisão e achava o máximo. Gil me adorou, achou que eu tinha que fazer música, que aquelas bobagens eram maravilhosas. Duas vezes quis deixar de fazer música e Gil não deixou.
Quando? No fim do período da Bahia, quando a gente ainda era novo. E, mais tarde, depois do fim do tropicalismo, antes da prisão. Queria comprar uma Kombi e sair fazendo uns espetáculos pelo Brasil. E depois deixar tudo, ir fazer filme, escrever. Gil falou nitidamente: “Se você deixar de fazer música, também deixo”.

Jogou pesado. Muito pesado. Então fui ficando, e depois fui preso. Aí teve o negócio de quase ficar louco, o exílio, e perdi um pouco daquela determinação. Fiquei mais acuado para mudar. A música era a única coisa que tinha, era real. Estava me agarrando à realidade. E gosto muito de música.

Então vamos falar de uma música nova. Em “Lapa”, você canta que “Pelourinho Vezes Rio é Lapa”. Essa equação de algum jeito resolve o Brasil? Logo os primeiros versos dão todo o histórico de como é esse negócio para mim: “Samba Canal 100 no meio dos 60/ E nos 70 era o largo da Ordem”. Quando eu era menino, não existia Canal 100 [cinejornal sobre futebol]. Tocava fox quando passava futebol, resquício de que era um esporte britânico. Não havia vinculação entre futebol e samba. Eu pensava que, se colocassem samba no futebol, o Brasil iria se afirmar. Aí apareceu o Canal 100 com aquele samba “Que bonito é.”, uma coisa maravilhosa. Isso é de uma importância enorme, era o Brasil vindo.

O trio musical da Banda Cê, que acompanha Caetano: da esq. para a dir., Pedro Sá, Ricardo Dias Gomes e Marcelo Callado, que estão no lançamento de Zii e Zie

E o largo da Ordem? Quando voltei de Londres, Curitiba se tornou minha cidade favorita. O Jaime Lerner tinha recuperado o largo da Ordem, que tinha a arquitetura mais tradicional da cidade. Mas Curitiba não tem relíquia arquitetônica. Zero, se comparar a Salvador, São Luís, Rio de Janeiro. Olhei para aquilo e disse: “Não posso nem sonhar, mas se isso fosse feito na Bahia ou em São Luís ou no Recife.”.

Seria como juntar samba e futebol. Entendeu? Não deu outra. Uma década depois, Antônio Carlos Magalhães fez a recuperação do Pelourinho. Quando aconteceu, nem queria ouvir reclamação do pessoal de esquerda, que dizia “mas as pessoas foram removidas.”. Conversa chata, demagógica. Aquela própria gente se beneficiaria tão mais de aquilo ter acontecido. Eu via aquilo como uma afirmação [do Brasil]. E era, e é. Depois, isso foi acontecendo na Lapa, de um jeito menos oficial que na Bahia. Fiquei muito emocionado. No Rio, esse efeito se multiplica, é muito maior. Levei uma amiga americana lá, e ela ficou impressionada como a Lapa era vital, elegante e popular.

Você continua saindo à noite? Ah, sim. Gosto de ir aos lugares, de estar com as pessoas. Sou animado. Agora, a resistência é menor. Envelhecimento é isso. Demora para se recuperar de uma noite de cansaço, de uma balada. Eu emendava todo fim de semana na Bahia. Bebia muita cerveja e cachaça, e quando chegava segunda-feira estava novo. Depois foi ficando difícil. Já com 30 anos as ressacas eram insuportáveis. Foi ficando pior. Tô cheio de beber.

Não bebe mais nada? Bebo só na terça de Carnaval. Este ano, bebi à beça.

Na Quarta-feira de Cinzas você deve ficar com a pior ressaca do mundo. Mas todo mundo está, então fico mais ou menos. Tem pessoas que estão bebendo desde quinta, e eu só bebi na terça.

Em “Falso Leblon”, você fala de uma balada com ecstasy, que é uma droga da sua geração. Não tem uma incompatibilidade com essa turma mais nova? Não tenho incompatibilidade com nenhuma geração boêmia. Com alguns caretas sim. Mas não gosto de droga, não tomo nada.

Nunca experimentou ecstasy? Nunca. Já sofri demais com negócio de droga, não suporto. Nunca fui viciado nem me acostumei. Cheirei lança-perfume aos 14 anos e tive pavor. Fumei maconha com 23 e tive horas de pânico absoluto. Tomei ayahuasca e passei dias de horror e um ano de angústia. Agora, convivo com todo mundo.

O medo das drogas passa pelo medo de ficar louco? Totalmente.

Ainda tem medo de ficar louco? Tenho. Não gosto de perder a consciência nem a razão.

O que você achou do FHC defendendo a descriminação da maconha? Gostei muito. Também gostei quando o Chico Buarque se manifestou a favor da legalização das drogas. Deveriam ser todas legais. Não gosto de pensar que as pessoas só não tomam droga porque é proibido. O álcool não é proibido, mas não é que a maioria da população seja alcoólatra.

Você saiu de um casamento longo, como está a vida de solteiro? A princípio, senti dificuldade, mas ao mesmo tempo sentia a animação da novidade. Nunca tinha sido solteiro. Saí de dois casamentos longos, minha tendência se provou ser para casamentos longos. Vivi na casa de minha mãe até sair com Dedé, e ainda estava com Dedé quando comecei com Paulinha [Lavigne]. Não pude viver solteiro, ter uma casa minha. Depois melhorei, fui melhorando, hoje gosto muito. Moro com meu filho Zeca, e é muito bacana uma casa com dois caras.

Você casaria de novo? Não pensei em casar nem da primeira vez.

Se pensar, não casa. Existe um folclore generalizado de que os homens não querem casar. Acho que o homem depende mais do casamento do que a mulher, ficam mais desamparados quando se separam. Mulher é adulto, homem é criança.

Você ficou surpreso, como diz a música “Sem Cais”, ao se dar conta de que “ainda posso me apaixonar”? Isso tem a ver com certas experiências minhas. Pensei que não fosse mais capaz, mas já faz tempo que descobri que talvez seja. Às vezes, você vê uma pessoa e percebe que poderia [se apaixonar], e nisso você sente tudo. Em geral, você se apaixona antes de encontrar alguém. Quando encontra, pode preencher e aquilo se potencializa, se materializa.

Já que você citou Freud antes, vamos falar da pulsão de morte. Como você lida com a morte? Sempre tive medo da morte, desde menino. Acho que sou menos angustiado hoje do que quando era novo.

Não devia ser o contrário? Claro que, sendo velho, vou viver muito menos do que já vivi. Acho que não é tão frequente os mais jovens terem menos medo da morte que os velhos. Não estou certo, mas acho que não é.

Sua insônia tem a ver com angústia? Tem. Mas tem a ver também com uma animação. Dormir nunca foi fácil para mim. Desde criança, não queria dormir. Preferia acompanhar as conversas dos adultos, os programas de rádio. Não gosto de apagar, de parar de conversar, de viver, de ver filmes, pessoas, fazer coisas. Agora, isso também pode ser uma face da angústia, talvez você confunda sono com morte, ou uma coisa assim.

Com 20 e poucos anos, você escreveu que seu coração “não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer”. Aos 66 anos, chegou lá? Ainda não. Mas reitero que meu coração não se cansa.

6.20.2009

MENSAGEM AO AMIGO CARYBÉ

Monumento à Cidade da Bahia, por Mário Cravo Jr - Foto: Fernando Vivas / Agência A Tarde

No ontem hoje amanhã eterno

MÁRIO CRAVO JR

Cobrimo-nos com o pó das estradas e com a lama entranhada nos poros a arrecadar ex-votos, esculturas vivas dos sertões, juntos, irmão Caryba, enchemos os corações com o mistério do sol escaldante da infindável caatinga.

Vimos, amigo, a mensagem nos olhos baços do cego andarilho aos pés de Monte Santo. Do Conselheiro Cruz em Canudos,


Antonio Conselheiro, escultura de Mário Cravo Jr, MAM-BA - Foto: Fernando Vivas / Agência A Tarde

rolamos por vezes até as catadupas de Paulo Afonso inda virgem na poderosa magnificência de suas quedas.

Viste, Carybé, na procura do cerne de nosso caboclo, as barrentas águas do São Francisco, e nas carrancas estáticas namoramos o cântico que o homem dedica ao rio.

Cortamos os canaviais de Pernambuco e raspamos por miríades de capelinhas quietas e adormecidas… Sergipe, Alagoas, Piauí, Pernambuco e Bahia.

Os santos povoam a trajetória do homem na sua procura.

Percebo, parceiro velho, sua presença inconfundível no meio dos capoeiristas, nas deferências aos Pais e Mães-de-Santo dos terreiros da Bahia; assim estás, como poucos, nas águas de Janaína e por dentro das palhas do velho Omolu.

Trouxeste, amigo Carybé, o sangue de homem e nos servistes em taça feita de folha de fruta-pão. No cântico de amor e vida, praticas, colega dos colegas, oblação de Oxalá na Ribeira que viu nascer e que em noites de lua cheia oferece véus de espuma à praia noiva, e deixou em tua alma, irmão, o sinal negro do Abaeté, por isto, desenhas poemas.

Morre Bugalho, crucificado em berimbau, enquanto Onça Preta salta numa perna só, qual saci redivivo, herói da liberdade.

Todas as imagens vêm a mim, quando com palavras tento situar o que não tem tempo e que já existia antes e depois de nós.

Ao despontar brancos e risonhos cabelos sobre os sucos acentuados que marcam anos de paixão colhemos frutos sazonados, maduros, a marcarem a compreensão dos homens; nossos amigos e irmãos são agradáveis, a aragem é benfazeja, mesmo fosse ela gerada por lágrimas e noites insones.

Na terra, na madeira, na água, no sal, na noite, no sol e nos homens estás, Carybé, como homem inseparável desta Cidade de Salvador, para agora e sempre.


Mário Cravo Jr - Foto: Elói Corrêa/ Ag. A Tarde


(Texto escrito pelo artista plástico/escultor baiano Mário Cravo e lido pelo artista no seminário ‘Encontro com Carybé’ realizado no MAM-Museu de Arte Moderna da Bahia, em 22 de maio de 2009, evento paralelo à exposição em comemoração aos 70 anos da chegada primeira de Carybé à Bahia. Participaram do seminário, além de Mário Cravo, Dona Nancy Bernabó – mulher do argentino/baiano, Ramiro e Solange – filhos, Dr. Gilberto Sá – presidente da Fundação Pierre Verger, a escritora Myriam Fraga – diretora da Fundação Casa de Jorge Amado e o jornalista/escritor José de Jesus Barreto)

6.19.2009

João Donato fala sobre sua relação com o tempo em depoimento no MIS

'Idade é só número'

Leonardo Lichote

RIO - Ao longo de quatro horas na tarde de quarta-feira, no Museu da Imagem e do Som, João Donato lembrou fatos marcantes de sua vida e carreira, além de expor como funciona seu processo de criação. Para conduzir a entrevista - parte da série "Depoimentos para posteridade", do MIS - estavam presentes o jornalista Antônio Carlos Miguel (O Globo), o produtor Humberto Braga, a compositora e cantora Joyce, a documentarista Tetê Moraes e Rosa Maria Araujo, presidente do museu.
Donato completa este ano seis décadas de carreira - o marco, lembrado no depoimento, foi a contratação pela Rádio Guanabara, em 1949. Mas sua relação com a música, ele contou, começou ainda na infância no Acre. Seu primeiro instrumento foi o cavaquinho, influenciado pelo "mestre Antônio", mestre de obras.
- Perguntei como fazia para tocar, ele disse: "Toca com as cordas soltas que já é um acorde". Gostei - recordou Donato. - Minha primeira música foi para uma amor que descobri, Nini. Era uma menina de oito anos, eu tinha sete. Encontrei-a recentemente e ela está igualzinha, só mudaram os números. Porque a idade é só um número.
A relação de Donato com o tempo foi um tema ao qual ele voltou de forma recorrente ao longo do depoimento ("O relógio para mim é como um círculo sem números, que gira em torno de si mesmo, como a Terra, o sol"). Com essa percepção em mente, ele falou com proximidade de fatos ocorridos há décadas. Contou da viagem do Acre para o Rio - já na embarcação que veio, um dos famosos "Ita", ele se apresentava tocando acordeom. Depois, passou pela descoberta do jazz, a ida aos Estados Unidos, a aproximação com músicos cubanos, o estouro da bossa nova (da qual foi um dos precursores), o namoro com o funk nos anos 70 (com seu disco "A bad Donato"), a profusão de CDs, DVDs e prêmios nos últimos e a relação com músicos mais jovens.

Conheça Aline Calixto, carioca de Minas Gerais que lança CD de samba com participação de Monarco e outros bambas

" Não é porque estou reverenciando o samba que vou sempre seguir este estilo. Sempre cantei muito e de tudo "

Christina Fuscaldo

RIO - Aline Calixto ficou famosa em Viçosa por comandar rodas de samba no tradicional Bar Leão. Ganhou fãs em Belo Horizonte após convidar ao palco os bambas Monarco, Nelson Sargento e Luis Carlos da Vila em uma temporada de seus shows. Mas foi na Lapa que esta jovem cantora se consagrou. Numa mesma noite de 2007, ela ganhou o concurso "Novos bambas no velho samba", do Carioca da Gema, e escreveu seu destino: menos de dois anos depois, voltaria à cidade onde nasceu para lançar seu disco de estreia.
- Eu e meus irmãos nascemos no Rio, mas aos seis anos fui para Belo Horizonte, porque minha mãe é mineira. Por incrível que pareça, moramos na Rua Corcovado, no bairro da Urca. Na adolescência vinha muito para cá, passar o réveillon... Agora, fico na divisa do Rio com BH - conta Aline Calixto.
A boa filha que à casa torna é a nova aposta da Warner Music no samba. Para colocar seu disco na mesma prateleira de Teresa Cristina, Roberta Sá e outras cantoras que se dedicam ao ritmo, a gravadora sugeriu que Leandro Sapucahy tomasse conta da cantora. Produtor do álbum "Samba meu", de Maria Rita, ele chamou grandes músicos da cena carioca para acompanhar Aline Calixto. Estão nos créditos do CD Mauro Diniz (cavaquinho), Layse Sapucahy (percussão), Carlinhos 7 Cordas (violão 7 cordas).
- Todos são nomes que admiro muito. Eles se juntaram a Thiago Delegado (violão 7 cordas) e Ricardo Acácio (pandeiro), músicos que são da minha banda. E ainda tive o prazer de ter a participação dos velhinhos da velha guarda - diz Aline
A música da qual Nelson Sargento, Walter Alfaiate, Wilson Moreira e Monarco participaram chama-se "Uma só voz" e é de autoria de Edu Krieger. Novo nome da cena carioca, Krieger assina também a composição de "Saber ganhar". O rapper mineiro Renegado é autor de "Faz o seguinte" e o carioca Rogê é parceiro do bamba Arlindo Cruz em "O teu amor sou eu".
- É bom ter os sambistas experientes junto aos novos, que vem com frescor. Eu mesma sou uma delas - comenta Aline, que assina as faixas "O dragão da maldade contra o santo guerreiro", "Você ou eu" e "Cara de jiló". - Esse repertório vem sendo construído há algum tempo. "Original", conheci na época da faculdade. "Rainha das águas", ouvi pela primeira vez na internet. Todas são inéditas, menos "Retrato da desilusão", que foi gravada por Jorge Aragão (no CD "E aí?", de 2006), mas não foi muito divulgada.

Virtuoses do violino,Joshua Bell e Hilary Hahn se apresentam na Cecília Meireles

RIO - Dois grandes nomes internacionais da música clássica se apresentam na Sala Cecília Meires desta quinta-feira (18.06) até sábado (20.06): os violinistas americanos Joshua Bell, ao lado Orquestra Sinfônica Brasileira (OSB), e Hilary Hahn, que toca pela primeira vez no Brasil.

Bell toca com a OSB sob a regência do titular Roberto Minczuk quinta, às 20h, e sábado, 16h, no segundo concerto da Série Ônix 2009. O violinista volta ao Rio depois de seis anos para interpretar o Concerto nº 1 para violino de Max Bruch, considerado uma das mais belas obras para o instrumento solista.
O programa da Orquestra tem uma abertura de Beethoven pouquíssimo ouvida nas salas brasileiras: Namensfeier, (em inglês, Feastday or Name day) op. 115, composta em 1815.
Veja trecho de show em cena do documentário 'Hilary Hahn: A Portrait'
A garota prodígio do violino Hilary Hahn, que aos 16 anos tocou no Carnegie Hall, em Nova York, como solista da Philadelphia Orchestra, se apresenta no Brasil pela primeira vez esta sexta-feira (19.06), às 20h. A ganhadora de dois prêmios Grammy de música clássica (o último deles no ano passado, na categoria Melhor Desempenho Instrumental Solo com Orquestra) mostra obras de Eugène Ysae, Charles Ives, Bhahms e Bartök, sempre acompanhada da pianista russa Valentina Lisitsa.
Hilary fez sua primeira grande apresentação com orquestra aos 12 anos. Aos 15, estreava na Alemanha, tocando Beethoven sob a regência de Lorin Maazel. Em 2001, foi eleita pela revista Time a Melhor Musicista Clássica Jovem dos Estados Unidos.

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QUINTA-FEIRA (18.06) e SÁBADO (20.06)
OSB - Série Ônix @ Sala Cecília Meireles. Regência de Roberto Minczuk com Joshua Bell no violino. Largo da Lapa 47, Centro - 2332-9160. Quinta, às 20h, e sábado, às 16h. De R$ 44 (meia) a R$ 172. Programa: Beethoven - Abertura em dó maior, Op. 115 "Namensfeier"; Bruch - Concerto N. 1 para violino e orquestra em sol menor, Op. 26; Beethoven - Sinfonia N. 3 em mi bemol maior "Eroica"

SEXTA-FEIRA (19.06) Hilary Hahn @ Sala Cecília Meireles. Largo da Lapa 47, Lapa - 2332-9160 / 9176. 20h. R$ 30 e R$ 15 (meia)
Fonte O Globo

Nelson Freire na TV BRASIL em 27 de junho

A Grande Música – Nelson Freire toca Ravel e Chopin
O programa apresenta, no sábado, 27 de junho, às 15h, o concerto da Orquestra Petrobras Sinfônica, com destaque para os dois compositores. No repertório deste A Grande Música, Daphnis et Chloé, Suite Sinfônica nº 2, de Maurice Ravel; e Concerto Nº 2 para Piano em fá menor, op. 21, de Frédéric Chopin.
O solista é o pianista Nelson Freire e a regência é de Isaac Karabtchevsky. O programa foi gravado no Theatro Municipal do Rio de Janeiro.
Nelson Freire é um dos mais renomados pianistas brasileiros e do mundo.Entre seus trabalhos registrados em CD está um álbum dedicado a obras solo de Chopin (entre elas os “Études” opus 10 e 25), resultado de anos de estudo e apresentações em público. A trajetória de Freire é marcada por prêmios e muitas apresentações no exterior. Sozinho, acompanhado de grandes orquestras e regentes ou em pequenas formações de câmara, o pianista brasileiro conquistou plateias e admiradores em todo o mundo, inclusive com seu duo com a também excepcional pianista argentina Martha Argerich

Cama suja

LUIZ FELIPE PONDÉ

Desconfio das bobagens juradas contra o sexo e o amor atormentados pelo pecado

NO FUNDO, desconfio muito dessa coisa de ética. Antes de tudo porque a palavra "ética" é como "energia", cabe em qualquer lugar. Ética profissional, ética no amor, ética com a natureza, ética na cama. Falando especificamente de cama, quanto mais suja, melhor. Quando ouço alguém falar em nome da ética, fujo.
Prefiro mentirosos inseguros. Os hábitos civilizados dependem mais da mentira do que da verdade.
Claro que não se trata de desprezar a sólida tradição da ética na filosofia: Aristóteles e sua ética das virtudes e do caráter; Kant e sua busca insaciável por regras universais de comportamento; ou os utilitaristas ingleses e os céticos escoceses, e a sensibilidade de ambos para com os limites psicológicos da moral presente no reconhecimento do horror ao sofrimento e da preponderância do hábito e dos afetos sobre ideais abstratos de "bem" ou de "justiça" como verdadeiros critérios da vida moral.
Por exemplo, o que vem a ser "ética no amor"? Dizer pra ela que está gorda? Ou dizer pra ele que seu desempenho está abaixo de seus outros amantes? Ou seja: é dizer sempre a verdade?
Outro tipo que me põe correndo é gente bem resolvida com seus afetos. Só confio em quem enlouquece de ciúme, em quem perde a cabeça quando sua mulher ou seu marido está conversando com alguém do sexo oposto com cara de quem achou um espécime interessante na festa. Aceitar que sua mulher ou seu marido está a fim de outra pessoa e ficar de bem com isso é papo de gente imatura. Ou de quem, na verdade, não ama. Amar é ficar fora de si ou ficar bem consigo mesmo porque não ama mais. Não existe gente bem resolvida, só gente indiferente.
Todavia, com o tempo e as frustrações, a maioria de nós chega à triste conclusão de que é mais feliz quem é mais indiferente.
Aliás, a partir de determinada idade, achar alguém interessante é tarefa para deuses. Com o tempo, temos a impressão que só existem três tipos de pessoas com três tipos de problemas básicos. Suas vidas são comuns; seus anseios, banais; seus desejos, mesquinhos.
Cheias de amores malsucedidos, quanto mais experiência amorosa, mais previsível.
Bobagem essa coisa de dizer sempre a verdade. Coisa de gente que não conhece gente e pior, gente que não gosta de gente. Nesse assunto, não existem imperativos categóricos (leis morais universais à la Kant). Aliás, o grande filósofo alemão Kant era muito bom de filosofia, mas não entendia nada de como as pessoas cheiram ou suspiram.
Por exemplo, tirem o pudor do amor e do sexo, e eles desaparecem. A simples suspeita de que o inferno te espera por culpa de tua fraqueza torna o amor e o sexo dádivas das deusas. Como se com elas deitássemos às escondidas. Por isso minha desconfiança visceral com as bobagens juradas contra o sexo e o amor atormentados pelo pecado.
Já disse antes que confio mais no fígado do que no cérebro, hoje diria que confio mais na alma afogada nas secreções do desejo do que na higiene das santas e honestas. Não há nenhum dos dois (sexo e amor) se não existir a ameaça da condenação. O medo aqui é como uma saia curta que esconde, entre as pernas, uma alma ansiosa. A banalidade da nudez contemporânea é a prova cabal contra o discurso dos afetos bem resolvidos. Neste sentido, os medievais, aliás, como numa série de outras coisas (o leitor dirá "sempre desconfiei que este colunista fosse um medieval"), sabiam mais do que nós, bobos da razão.
Qualquer boa literatura romântica medieval sabe que amor e sexo estão intimamente ligados ao inferno nas paixões. Ninguém ama no paraíso, argumento final contra a salvação. Mesmo na Bíblia, no Cântico dos Cânticos, aquele livro considerado pela tradição judaica como o mais sagrado dos livros sagrados, encontramos a advertência da amada, a heroína da narrativa: "filhas de Jerusalém não despertem o amor de seu sono... a paixão é um inferno".
Mulheres sempre foram vistas como especialistas no amor, talvez pela imagem ancestral de que nunca foram seres iludidos pela razão, mas sempre torturadas pelo desejo. Para mim está é a maior das provas de que cegos são os homens que as veem como inferiores.
Divago, dirá meu caro leitor. Sim, divago, mas não deliro. Como se num voo, do alto, contemplasse homens e mulheres vagando por um continente abandonado, fugindo da própria sombra. Pessoalmente vejo a ética como o combate supremo do homem com o animal que o devora.

ponde.folha@uol.com.br

6.18.2009



Figurótico no inferno


No próximo dia 20, o grande guitarrista e vocalista Figurótico estará com seu trio na quarta edição da festa Inferno no Hotel Embaixador em Volta Redonda.


Confira abaixo sua agenda

Dia 19
Local: V8 Motor Bier
Rua 29 de setembro, n. 68
Bairro Comercial, Resende (RJ)
Horário: 21:00 hs

Dia 20
Festa Inferno (Quarta Edição)
Local: Piano's Bar - Hotel Embaixador
Travessa Luis Antônio Félix, 36 - Centro
Volat Redonda (RJ)
Horário: 22:00 hs (ingressos limitados)
Shows: Figurótico e Duques (RJ)
Discotecagem: Xan, Minha Garota, Beatbass High Tech
Vídeos: Ramones + Clássicos do Terror


Comédia infantil no Sesc

A comédia infantil Em Busca dos 5 Elementos é a próxima atração do Sesc Barra Mansa. O espetáculo será nos dias 25 e 26 (quinta e sexta-feira), às 20h, e no dia 27 (sábado), às 16h. Os ingressos custam R$ 2,50 (sócios do Sesc), R$ 5 (meia entrada) e R$ 10 (inteira). A classificação é livre. Mais informações pelo telefone 3323-0810.

O Sesc fica na Rua Tenente José Eduardo, nº 560, Ano Bom.

Sinopse: a Terra está em perigo! Afrodite (Deusa do Amor) perde o anel mágico para Tanatos (Deus da Destruição), este anel lhe dá forças para manter a chama do amor acesa. Atenas (Deusa da Sabedoria) pede ajuda a dois irmãos palhaços (Sorriso e Risada) para conseguirem reunir os 4 elementos: Terra, Fogo, Ar e Água, formando assim o punhal dourado que é única arma capaz de destruir Tanatos. Para conseguir os elementos os irmãos terão que viajar por 4 reinos distantes: Arval – Subterrâneo (Elemento Terra); Adurir – Vulcão (Elemento Fogo); Ariano – Nuvens (Elemento Ar) e Águas Profundas – Mar (Elemento Água).
Colaboração Angela Chaloub

achada no palco do Cotton Club, NY, anos 20


É quase certo que tenha sido lá, no Cotton, a primeira audição de "Black and tan fantasy", em meados dos anos 20, apenas para brancos (ricos, artistas do show business, gangsters), já que os negros, ironica e perversamete, eram proibidos de entrar. Duke Ellington a gravou pela primeira vez em 1927. Apesar de ser um homem de classe média alta, Duke sempre se identificou com as causas de seu povo. Rejeitou, por exemplo, a ópera de George Gershwin "Porgy and Bess", por considerá-la inautêntica e oportunista."Black and tan fantasy" é uma das primeiras obras em que Duke utiliza o que ficou conhecido como jungle style, caracterizado pelo emprego expressionista de instrumentos de sopro como o trompete e o trombone, que procuram, coadjuvados pelo mute (surdina) traduzir o sofrimento dos negros, arrancados de seu ambiente para serem explorados e humilhados pelos brancos. Neste registro ao vivo, no Festival de Newport, em 1956, destacam-se, pela ordem, Russel Procope (sax-alto), Cat Anderson (trompete), o próprio Duke (piano), Butter Jackson (trombone) e de novo Russel (clarinete) e Cat, trompete.
(Arquimedes Luiz)