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9.10.2010

CHICO BUARQUE DE HOLLANDA:O HOMEM QUE NÃO GOSTA DE OUVIR MÚSICA

Bundas - 19/06/2000
Um dia ouvi alguém dizer sobre um artista de grande talento da minha geração: "falta-lhe sofrimento e um pouco de ódio no coração para ser um grande artista". Não estou assim tão certo se estes componentes são necessários para a construção de um grande artista.
Chico Buarque, um dos maiores artistas brasileiros do século XX, construiu uma obra densa - ainda que curta na literatura mas vastíssima na música popular - e não há qualquer sombra de ódio nos seus olhos azuis nem presença de sofrimento no seu vasto sorriso.
Durante as três horas que passamos juntos no seu apartamento - de vista deslumbrante - no Leblon, Chico me pareceu o ser mais pacificado que conheci. Lembro-me de Bruna Lombardi entrevistando Harrison Ford e Marília Gabriela entrevistando Madonna. Que desagradáveis figuras, desumanas, incapazes de descerem de seus pedestais de mito. Chico, para nós, é muito maior do que os dois juntos e, sentado conosco, um marciano jamais descobriria ali a que líder deveria ser levado. Éramos todos mortais da mesma praia.
Além do clima de total descontração, foi uma alegria imensa para nós descobrirmos - Zezé Sacks era a única que sabia - que tanto nossa revista como Chico Buarque faziam aniversário no mesmo dia. Se seu signo for tão dadivoso para Bundas como foi para ele, que grande futuro aguarda esta revista.
Outra coisa: a entrevista foi profundamente alegre, gêmeos nos protegia, o astral era altíssimo e, por um longo tempo, conversamos abobrinhas com Chico. Se você estiver atrás de uma revelação bombástica, não leia esta entrevista pois nenhum de nós - os entrevistadores - estávamos atrás disso. Agora, se você quer conhecer um pouco da alma boa de Chico Buarque, venha conosco, com a Maria Lucia Rangel, com a Zezé Sacks, o Caco, o Miguel Paiva, o Aroeira, o Fred Fotógrafo, o Luís Pimentel, o Poerner, o Ricardo Leite e o locutor que vos fala, os privilegiados. (Ziraldo)

5.13.2010

ENTREVISTA COM MARCUS MODESTO

JORNALISMO

Qual é sua especialidade? De que assuntos você trata?
Blog voltado para a divulgação de Eventos Culturais,Shows,Relação de Bares,Restaurantes, Pousadas,Hoteis e Fazendas da Região do Vale do Café

Em que meios você trabalhou?
Televisão e Jornais Diários

Um endereço web onde possamos ver algo sobre você?
www.botecosdovaledocafe.blogspot.com

O que é noticia?
Uma série de fatores envolve o processo que transforma uma pauta em notícia.
Claro que o bom senso do jornalista é o que determina o que será ou não notícia, pois o profissional analisa a realidade dos fatos e a transmite para o público. Portanto, nem tudo o que acontece torna-se notícia

O que é para você a objetividade?
Ser claro, honesto e objetivo

Qual é a melhor manchete que você leu?
Sinceramente eu não sei...talvez Obama na Casa Branca...

Qual é a manchete que você gostaria de ver algum dia nos jornais?
Acabou a impunidade no Brasil

Que jornal você compra aos domingos? Onde você o lê?
não compro

A liberdade de expressão acaba onde começa a linha editorial da mídia?
Sim. A liberdade de expressão sempre termina quando começam os interesses dos proprietários do veículo e seus interesses comerciais.

O jornalismo de analise e investigação está se perdendo?

Acredito que sempre haverá espaço para o jornalismo de análise, principalmente para um público mais exigente que busca uma informação mais apurada.
Quanto ao jornalismo investigativo penso que está cada vez mais escasso. Muitos profissionais não querem arriscar suas vidas por causa de uma notícia.

Com uma câmera em cada telefone, cada cidadão se transforma em um correspondente?
Não. Não são os aparelhos tecnológicos que transformam um cidadão comum em um jornalista correspondente. É necessário um olhar crítico sobre a realidade a ser avaliada, o que só pode ser feito com qualidade por um profissional da comunicação.

Como você explica o auge do jornalismo dedicado ao show business?
Porque tem público e porque é um tipo de jornalismo extremamente barato de ser produzido. Basta colocar um fotojornalista em qualquer lugar da moda e esperar a primeira celebridade de ocasião aparecer e está feita uma notinha.

Qual é sua posição sobre o direito dos famosos a sua intimidade?
A fama tem seu preço e só estão nela àqueles que realmente se dispuseram a pagar o que ela pede. Sua intimidade passa a pertencer ao público, como regra de contrato pela glória e pelo glamour recebido.

O que você pode nos ensinar sobre a arte da entrevista?
Entrevistar não é fácil, exige treino, preparo, mas principalmente sensibilidade. Depende muito também do entrevistado, mas é básico saber: entrevistas devem fluir como uma conversa. Por isso é importante que o jornalista esteja à vontade e deixe o entrevistado mais à vontade ainda, assim, ele diz mais do que pretendia dizer, e isso transforma a matéria, leva além.
Mas para que o jornalista fique à vontade, é importante que ele se prepare bem antes de partir para a entrevista, estudando bem a pessoa com quem irá conversar, saber de sua história, sua trajetória, os fatos mais marcantes. Além disso, é imprescindível ter claro na mente o que se quer revelar desta personalidade, tirar dela o que as pessoas querem realmente saber. Quando se faz isso com transparência e honestidade, fica fácil e prazeroso.

Pessoas famosas que você entrevistou
Mieli,Lula,Francis Hime, José Dirceu, MPB4, etc....etc....

O jornalismo blog está revolucionando a profissão?
Sim, levando em conta que o jornalista tem maior liberdade para opinar sobre questões que, em um veículo normal, não poderia.

O jornalismo de papel desaparecerá?
Não acredito nisto

O que você pensa de imprensa gratuita que se distribui nas cidades?
Devido aos recursos limitados, costuma ser de baixa qualidade na grande maioria (existem exceções). No entanto, acredito que quanto maior o alcance da imprensa, mais democrática ela se torna e, para isso, a gratuidade às vezes é um item importante.

Qual é o livro que você gostaria de escrever?
Algo sobre ciclismo

Algum lema ou principio ético esclarece suas decisões em momentos de confusão?
A verdade

Que conselho você dá a alguém que acaba de sair da faculdade e quer se introduzir na profissão?
Sempre conferir a fonte e publicar a verdade

Entrevista publicada

4.12.2010

A Lógica do Cisne Negro, de Nassim Nicholas Taleb

Julio Daio Borges
Black Swann by Carolincik
* A Lógica do Cisne Negro, de Nassim Nicholas Taleb, pela editora Best Seller, ficou mais conhecido por, de uma certa maneira, "prever" a crise do subprime no ano passado. Junto com Nouriel Roubini, o "Dr. Doom", Taleb era um dos que melhor descreviam o cenário apocalíptico em que o mundo mergulhara, oficialmente, a partir de 15 de setembro de 2008. Não sei se fui ler o livro com essa expectativa, mas é bem provável. Na realidade, uma coluna da professora Eliana Cardoso, no Valor — com quem eu me encontrara pessoalmente, por outros motivos —, justamente, indicava que não se tratava de um best-seller oportunista, tentando "fisgar" incautos. E duas coisas me chamaram logo a atenção na contracapa. Primeiro, obviamente, o elogio de Chris "Free" Anderson — que não era nada econômico e classificava Cisne Negro como "uma obra-prima". Também uma citação tirada do próprio texto, contando a história da descoberta dos primeiros cisnes negros na Austrália. Como, na Antiguidade, não se conhecia o continente australiano, havia a certeza de que todos os cisnes eram brancos. Bastou um único cisne negro — no dizer do Taleb — para que milhares de anos de crença, em cisnes exclusivamente brancos, viessem abaixo. Outros "cisnes negros" — na orelha do livro — que me convenceram a lê-lo de imediato: o 11 de Setembro e, claro, o Google.

8.18.2009

Fellini por Fellini: entrevista com o cineasta italiano


Por L&PM Editores em 5/6/2009

Confira artigo sobre o autor e a entrevista realizada pelo jornalista italiano Aldo Tassone em 1983 e publicada no Brasil pela revista literária Oitenta (L&PM, 1980)
Outras de Fellini por Fellini
Por Aldo Tassone

Tradução de Fabienne Roche
Em alguma lugar da escrivaninha, há uma pasta: “Filmes por fazer”.
Dentro dela, a desordem: cartas, rabiscos, recortes de jornal,
fotos, páginas arrancadas de livros, retalhos de pano...

Durante o volúvel início do verão de 1914, alguns representantes da alta-sociedade embarcam num estranho cruzeiro: trata-se de ir espalhar as cinzas de uma cantora de ópera ao largo da ilha onde ela nascera. Ao cabo da viagem: o naufrágio, é claro. Sobre esse tema, Federico Fellini construiu um filme precioso. E la nave va. E consentiu em explica, ele próprio, os segredos dessa armadilha imaginária.

Aldo Tassone – O mar aparece freqüentemente em seus filmes, como se vê em La Strada, La dolce vita ou na aparição de Rex dentro de Amarcord, e não somente como pano de fundo. Em E la nave va você trata de toda uma viagem no mar. Como você chegou à idéia desta travessia insólita pelo destino da viagem, pelo tipo de passageiros e pela data escolhida?
Federico Fellini – (suspirando) As coincidência que presidem o nascimento de um filme são insondáveis. Você me obriga a repetir que o nascimento de um filme, ao menos para mim, se reduz à assinatura de um contrato e ao recebimento de um adiantamento: momentos mágicos! É difícil fingir indiferença quando o produtor tira uma suntuosa pasta de couro que contém, bem-organizados, todos os cheques em seu nome! O roteirista Mangione, com o qual eu trabalho há já muitos anos, não consegui conter sua emoção naquele momento: ele tinha lágrimas nos olhos e tinha seu cheque bem preso entre as mãos, como se acreditasse que este não fosse perder o valor na poltrona de lona!
Quando em ponho a fazer verdadeiramente o filme, é por que não tenho vontade de devolver o adiantamento. Eu pertenço àquela categoria de pessoas que, para ter êxito em qualquer coisa, precisa de um financiador. A liberdade total, a independência, que invocam tantos de meus colegas, significaria para mim o fim de todo o ato possível de vontade, porque eu não encontro as condições para uma rebelião necessária, e essa (liberdade) não catalisa a energia necessária. Eu quero me sentir controlado, sentir raiva, antipatia e rancor por quem me obriga a respeitar o contrato: o produtor. Como no Renascimento, quando Sexto Quinto ou Inocêncio II jogou na prisão o artista que não havia executado os afrescos do arco da igreja ou o madrigal para a princesa. Sem limites, sem fronteiras e, se posso ousar, sem pressão psicológica, não há mais do vazio, indiferença, esboços.
EM algum lugar de minha escrivaninha há uma pasta onde está escrito: “Filmes a fazer”. Dentro dela, a desordem: cartas, rabiscos, recortes de jornal, fotografias, páginas de livros arrancadas, retalhos de pano, que podem suscitar relações comum filme que ainda não existe a não ser como possibilidade. A idéia de um filme pode muito bem nascer, justamente, bem antes de todo o resto, de um detalhe minúsculo aparentemente insignificante, como um pedaço de retalho de trapo...


Aldo – O retalho de trapo, no caso de E la nave va, consistia no quê?
Fellini – Era um recorte de jornal que eu guardava naquela famosa escrivaninha. Dizia que um cantora lírica desejara, em seu testamento, ser incinerada: suas cinzas deveriam ser espalhadas ao largo da ilha onde ela nascera. A imagem suscitada por esse incidente inquietou-me profundamente: eu imaginei o navio imóvel ao largo da ilha, os membros da comitiva perfilados, os amigos, a família, e o vento que levava as cinzas dispostas sobre uma almofada de cetim preto; ao longe, tremulando como uma miragem, a ilha. De cima, alguém colocara em movimento um fonógrafo com um disco da cantora e se entende que, acariciadas pelo vento, sua voz e ao mesmo tempo suas cinzas esvoaçavam pouco a pouco...Foi dessa imagem que o filme nasceu.
Como Toninho Guerra, passei dois ou três dias a discutir essa imagem, livremente, sem uma idéia precisa. Depois nós chegamos a um rascunho da história e, enfim, no espaço de três semanas, a um roteiro.
Era meados de agosto, no imóvel a frente alguns locatários criminosos haviam abandonado um cão que não parava de latir com desespero. Eu chamei os bombeiros e nós libertamos o pequeno cocker, que, todo traquinas e feliz, participou ele também da segunda parte do roteiro.
Se três semanas parecem pouco para fazer um bom roteiro, eu o convido a considerar o seguinte fato: entre as primeiras sugestões do enredo e começo da filmagem, passarem-se três anos. Isso é tempo demais para fazer nascer a confiança num filme que não é totalmente indigno.


Aldo – O título do filme é quase intraduzível. O francês Et vogue le navire não me parece dar conta da significação exata da expressão italiana. No Brasil, nem traduziram: foi mantido o título italiano original. O italiano põe maior destaque no movimento do navio do que no próprio navio. De onde veio este título que poderia muito bem ser uma frase de uma ária de ópera?
Fellini – Foi somente no fim da redação do roteiro que eu propus E la nave va, sem grande convicção. Eu pensei em mudá-lo, mas um título tem sempre qualquer coisa de emblemático, de esotérico e, portanto, de predestinação: por isso eu não o troquei. O que quer dizer? Eu também não sei: resignação, talvez, ou esperança, inelutabilidade, vagas promessas de um dia chegar ao porto.
Aldo – O próprio nome do navio é misterioso: Gloria N., um nome de mulher. É uma metáfora?

Fellini – Qualquer que fosse o nome escolhido, você me faria a mesma pergunta. O que eu gostei foi o “N ponto”: uma espécie de aviso, um nome anunciando um evento desconhecido iminente. Quanto ao resto, eu gostaria que você contivesse a sua curiosidade e passasse às questões mais pertinentes.
Aldo – Eu gostaria mesmo de saber se Glória pode ser interpretado – nós o faremos infalivelmente – como um sinônimo de “glória”. Eu posso lembrá-lo que há alguns anos, ao ver a tenda do circo elevar-se no começo de Clowns, um crítico francês falou de “ereção simbólica do pênis”.

Fellini – (rindo) Seus colegas franceses são ainda mais febris que nós neste tipo de policiamento espasmódico de perseguir o sentido do menor detalhe. Mas não escreva isso! Ou, talvez, sim. Eu deixo a seu critério.
Aldo – A escolha do ano de 1914 para a viagem ritual do Gloria N. não é certamente um acaso. Ou isso não muda nada?

Fellini – No começo, recordo que eu tinha em mente as silhuetas às vezes charmosas e lancinantes, como são por vezes essas fotografias do desconhecido. Eu queria voltar ao estilo dos primeiros filmes: uma película toda em preto e branco, estriada, com manchas de luminosidade, como uma peça de museu, um pouco como uma peça falsa. Eu estava muito seduzido por essa idéia, por que eu acho que o verdadeiro cinema deveria ser assim.
Talvez eu também quisesse evocar a “nostalgia” com uma veracidade hoje desaparecida, e, com ela, o rito pelo qual nós comemoramos esse sentimento também lancinante; igualmente mostrar que esse rito comemorativo da nostalgia é vivido de fora de toda a nostalgia autêntica. Eu acho que hoje em dia nós não somos mais capazes de saborear a nostalgia: é um sentimento que, pelo fato de ser aviltado pela televisão, terminou por ser consumido por ela.
Aldo – Em que sentido nós somos devorados pela nostalgia?
Fellini – Nós somos procurados, acossados e perseguidos pela moda dos revivals. Nós comemoramos os anos 20, depois os anos 30, e depois os 40: você verá que brevemente nós comemoraremos o domingo que recém passou, e até mesmo, por que não, as datas a vir... O presente desmorona sob nossos passos, tudo não é mais do que um caos vertiginoso sem pé nem cabeça.

Aldo – Eu achei que a personagem do jornalista que supostamente faz a crônica da viagem, Orlando, lhe tenha sido inspirado por esse sentimento de náusea que você tem, justamente da televisão.
Fellini – A viagem é de fato relatada por um jornalista. Sua presença, o que ele diz, ou melhor, o que ele se cansa de dizer, pretendendo dessa maneira substituir a realidade verídica, tudo aquilo nos priva do contato direto com o acontecimento que ele retransmite o despojar de toda a emoção, de todo o senso de responsabilidade. Nós vivemos hoje em dia cercados de televisores, de rádios, de jornais, que nos “narram” os eventos de tal modo que desenvolvemos, em nós e ao nosso redor, como uma espécie de placenta, uma bolsa amniótica, uma película de amianto que nos protege da realidade. A realidade, nós não a percebemos a não ser através de uma membrana, de um diafragma, e nós não acreditamos mais o que nos vende a televisão. E, como a televisão nos vende (a realidade) dentro de uma linguagem de espetáculo cinematográfico, produz-se uma “desrealização” contínua, excessivamente perigosa, de modo que as mais graves catástrofes terminam por não causar maior impacto do que se as vivêssemos numa ficção, numa comédia ou num filme. Qualquer futurólogo, qualquer sociólogo ou psicólogo não está mais em condições de diagnosticar ou prever os danos, ou muito menos, as conseqüências que a televisão traz a nossa compreensão do real e ao nosso modo de afrontar a existência. Talvez isso não venha a ser também catastrófico, como nossa geração está inclinada a pensar: resta que existe uma mutação, na qual não se chega a avaliar as formas neuróticas que ela assumirá no futuro.
Você me perguntou há pouco por que eu fixei a data em 1914: achei que ficava bem assim. Os temas que abordei – o desaparecimento da nostalgia, a hiperinformação desrealizantee desresponsabilizante – são fenômenos adequados aos dias de hoje. Isso pode causar confusões: agredido, intoxicado como é por toda essa alienação, o espectador arrisca não obter sucesso na apreensão do sentido com o qual eu quis inventar a história.
Pareceu-me mais eficaz e mais eloqüente abordar os componentes neuróticos de nossa época deslocados para trás dentro do tempo. A tensão que vivemos há mais de vinte anos, o horror do amanhã, esta insegurança que nos sufoca e nos estrangula ao ponto de nos forçar a crer que não podemos mais viver de outro modo, tudo isso, eu pensei, seria percebido e vivido com um impacto mais dramático se minha narrativa se situasse em uma data fatídica: a véspera da Primeira Guerra Mundial.


Aldo – Fala-se, a propósito desse filme, de apocalipse. Para parafrasear o titulo de um de seus últimos filmes, pode-se intitula-lo Prova di apolisse (Ensaio para um apocalipse). Portanto, ele não é inteiramente terrível, há também uma alegria nele.
Fellini – Um de meus amigos me disse que ele achou o filme terrível. Compreenda bem: não creio que ele falasse da qualidade, mas sem dúvida ele quis dizer que havia ficado muito impressionado. Comumente um autor enche-se de arrogância quando ouve dizer que aquilo que realizou amedronta. Ele sente-se importante, mais eu não compartilho desse tipo de opinião. Se é possível arriscar um comentário sobre meu filme, é que ele é alegre, Para mim é um filme que dá vontade de fazer outro logo em seguida.
Assistir, bem sentado em minha poltrona, ai desenrolar de uma catástrofe que receamos há muito tempo já produz um inegável sentimento de liberação. De fato, quando o espectador começa a pressentir que o desfecho do filme será, inevitavelmente, a catástrofe, ele aplaude: notadamente no mesmo momento do naufrágio. Isso parece insensato: como podemos aplaudir a imagem de um cruzador aprontando-se, com todos os canhões para fora, como um pólipo com seus tentáculos, para pôr o navio a pique com todos seus passageiros, aqueles mesmos cuja história acompanhamos durante todo o filme? Um medo contido por longo tempo transfere-se para uma emoção, a partir daí, desenfreada: o aplauso é a manifestação de um alívio e de uma gratidão. Nesse sentido, o final do filme pode ser interpretado como um final feliz: provoca-se uma distância, dissipa-se o temor e a angústia. O filme nos dá esperança, energia e confiança.
Aldo – Duas “pessoas” escapam ao naufrágio coletivo: o jornalista e. um rinoceronte. Todo mundo perguntou a você o porquê. O que representa este misterioso rinoceronte que viaja no porão do Gloria N.?
Fellini – Quando me perguntam sobre o sentido simbólico de meus filmes, isso me faz berra de desespero. Mas o que é essa necessidade neurótica de traduzir continuamente uma coisa pela outra? Como o que rima isso de procurar o sentido escondido atrás, acima ou abaixo, sobre ou sob uma imagem, um personagem, uma situação ou um objeto? Tornou-se um hábito. Nós não temos mais confiança em nós mesmos: seminários, mesas-redondas, debates e entrevistas televisivas terminam por nos tornar completamente desconfiados de nossa própria capacidade intelectual. Nós estamos todo o tempo desejando que alguém nos diga algo diferente do que vemos: “Sim, é o aparecimento do cruzador, mas, em realidade, é também a interrupção agressiva do recalque.”; “Sim, isso se parece com uma gaivota, mas, em termos psicanalíticos, é o prenúncio de um novo conceito de coisas...” Uma criança de dois anos, ela que emerge de uma dimensão completamente diferente, tem o direito de perguntar quando vê um ovo: “Que é isto?” Mas não é um pouco anacrônico e desprovido de sentido que nós, na nossa idade, continuemos a perguntar ao autor de um filme o que quer dizer um rinoceronte?
Aldo – Os rinocerontes não representam o inconsciente? Não foi por acaso que você instalou-o bem no fundo do porão do barco, para depois fazê-lo içado para o tombadilho. Ou então será que digo bobagens?
Fellini – Veja bem: se eu disser a você que coloquei um rinoceronte por que todos os especialistas na questão me afirmaram que, na época, em 1914, os navios tinham a obrigação de embarcar um deles, vocês da imprensa pensariam, e com razão, que estou sendo espirituoso. Se, como revanche, eu digo que o ventre do navio, nas profundezas mais abissais, abriga a “coisa”, isto é, parte que em nós, animal e inconsciente, vive fora do tempo e do espaço e, portanto, ajuda nossa existência a viver com ela... Eis aí umas respostas que vai contentar mais de um, mais eu... me sinto ridículo.

Alguns dos meus colegas têm satisfação com este gênero de questões: eles sentem-se lisonjeados, dir-se-ia que eles fazem filmes sobretudo com o objetivo de dar explicações. Eu não quero e nem sei faze-lo; em todo o caso, eu não tenho nada mais a fazer. Ou bem o filme é uma criação viva, vital que fala por si mesma e, portanto, instaura em cada espectador uma relação secreta, íntima; ou então, se isso não acontece, não se pode desejar que o autor o glose, multiplicando explicações e interpretações. Isso me parece inoportuno e mesmo ofensivo. A ambos: ao público, porque é tratado como um povo ignorante que deseja que lhe expliquem tudo, e ao filme.
Aldo – A breve cena do pré-final, na qual você mostra a equipe do filme rodando sobre o tablado com um balanço que produz o movimento do mar, se parece com um extrato de reportagem sobre o próprio filme. Por que, naquele exato momento, você sentiu o desejo de deixar cair seu jogo? Somente para lembrar ao espectador que o que ele vê não é nada mais do que cinema?

Fellini – Se “eu deixo cair meu jogo”, como você diz, não é somente para agradar, dizer que tudo está sendo “representado” não é mais do que a pura imaginação, que o autor não quer aterrorizar pessoas. Pelo contrário: não nos resta mais do que um só dever frente ai desastre. Frente ao caráter inelutável de uma catástrofe que nós não estamos mais em condições de parar, o único dever é o de “testemunhar”. Tudo isso é sugerido pelo último travelling: à medida que descobrimos o estúdio, o balanço artificial do mar, a equipe e a câmara, que, para o cineasta, é o instrumento do testemunho (não somente sobre sua eventual mensagem, mais também sobre o meio de expressão que lhe é mais natural, o cinema).

Aldo – Podemos ver esse naufrágio, situado ao fim de uma época, como uma espécie de funeral do cinema?
Fellini – Sim, coma condição de aceitar que esse funeral deve ser recontado pelo próprio cinema.

Aldo – Eu gostaria também de falar de estilo: você nunca esteve tão seco, conciso, imóvel como neste filme.
Fellini – Não fui eu que “mudei de estilo”: o filme exigia aquele estilo. Como eu imaginei uma história que se passava há 70 anos, para manter-se fiel ao que se havia formado em minha imaginação, eu procurei instintivamente, um pouco como artesão, um estilo que pudesse dar ao expectador a sensação de que aquilo que ele vê é um documentário sobre o que realmente aconteceu naquela época. Eu tentei criar esta sugestividade por todos os meios possíveis. Inconscientemente, o espectador que tem que retroceder no tempo, ao começo do cinema. Ele se lembrará das películas amareladas, essas fotografias de gente hoje desaparecida: é então que nasce nele, quase de forma subliminar, um sentimento fúnebre de aniquilamento, um gosto de pós, de extinção, que o predispõe ao receio e à angústia de um acontecimento doloroso. Eu poderia falar sobre horas da construção de cada seqüência, mas é inútil: eu prefiro deixar o prazer da descoberta ao espectador.
Aldo – É verdade que inicialmente você queria transformar o filme em preto e branco?

Fellini – Em preto e branco não, mas em cor sépia, e pela razão que acabei de falar. Mas pareceu-me que, como o tempo, o filme seria cansativo e também que seria percebido o truque, o artifício, a citação complacente. Esta é a razão pela qual os vinte primeiros minutos estão em tom sépia: para sugerir a idéia de um documentário, de um pedaço de antologia, assim como em toda a banda sonora há um zumbido do velho projetor. Depois, praticamente sem prevenir, eu falo intervir o ranger de uma roldana, o bramido grave e abafado de uma sirene, algumas notas de música e, pouco a pouco, mas sem que nos demos realmente conta – porque percebemos quando já estamos dentro começa a narração, o filme, exatamente como o público está acostumado a ver.

Aldo – E la nave va é também um filme sobre a ópera. Sua atitude, em relação à ópera, parece-me dúbia: por um lado, você admira o gênio de Verdi ou de Rossini, a própria música; por outro lado, há uma certa ironia frente aos cantores. Eu penso na maneira como você mostra a rivalidade entre eles, seus ares pretensiosos. Você não tem maior simpatia por eles do que pelos clowns.
Fellini – É uma mistura de simpatia e de ironia, de caricatura e de solidariedade. Quando vejo ou quando descrevo as personagens de minhas histórias, sinto-me naturalmente mais zombador do que afetado. Mas eu não acho que este filme tenha intenções claramente satíricas como você diz. Os cantores são aquelas pessoas que se concentram por inteiro não somente na representação deles mesmos, de suas atitudes vaidosas, narcisistas, mas também sobre o caráter particular de seu próprio talento: os dons deles são em parte psicológicos, é um sistema que anda com os pulmões, o diafragma... Esta robotização do corpo pode deixá-los um pouco cômicos, mas a partir do momento em que se especializam em alguma coisa ao ponto de não viver passionalmente a não ser para ela, os outros sempre os acham grotescos. Nós, os cineastas, nós somos um pouco grotescos.
Aldo – A julgar pela sua utilização da música de Verdi e de Rossini, você parece conhecer bem ópera. Você jamais foi tentado a pôr em cena uma obra lírica, ou de transportar para a tela uma ópera? Propuseram tantas vezes! Por quê?
Fellini – Eu sei, a ópera faz parte de meu “italianismo” da mesma forma que bersaglieri, Garibaldi, ou os imperadores romanos. Algumas árias me são familiares há algum tempo. Nós todos vimos nossas tias e primas chorar em Chamo-me Mimi¹ e nossos tios se porem a cantar furiosamente Se eu fosse guerreiro². Há também os bêbados que, na noite, sozinhos numa praça, põem-se em bandos a cantar aos brados árias de óperas! Tudo isso é de tal modo interiorizado que termina por nos deixar como estrangeiros, como o inconsciente. A ópera tem um lado ardente que me fascina, mas eu experimento esse gênero musical como uma espécie de estrangeiro familiar, do mesmo modo que experimento tudo o que diz respeito a uma casta, a um cerimonial, e que tem sempre me devolvido a esse sentimento de estranhamento, de solitude. É por isso que eu não quis jamais – não sem me sentir um pouco em falta – participar desse rito italiano, e até itálico, com tudo que isso comporta de caloroso, de envolvimento passional, coletivo.
Propuseram Lulu, de Berg e Ainda, de Verdi. Um dia, um maestro perguntou-me: “Por quê você não presta homenagem à ópera, como você fez ao circo com I clowns? A ópera não deseja publicidade Fazer Ainda: Eu não saberia por onde começar: que fazer? A abertura de Barbeiro de Sevilha, desde as primeiras notas, parece-me muito mais metafísica do que a Quinta Sinfonia, de Beethoven. É uma peça que me faz tremer de emoção. Rossini é um gênio absoluto...Nos meus filmes, a música de Nino Rota assume uma função epidermicamente ligada à imagem, por criar quer os suportes, quer as passagens. Atualmente, como fazer para dar à música uma tal eficácia visual e à imagem uma tal transcendência sonora? Na ópera, isso tudo já está pronto. Eu não compreendo muito essas dispendiosas tentativas que se fazem hoje em dia e que utilizam a história da pintura, ou recuperam a literatura...Isto é sempre da cozinha! A ópera é um rito, uma missa, uma pastoral. E, acima de seus erros, ela é respeitável naquilo em que sempre exprime com perfeição. Por que querer dar rigor e expressão suplementar a qualquer coisa que encontre sua vitalidade, justamente, no simples fato de a harmonia se engendrar por si só, como corre algumas vezes numa procissão, e funerais, numa corrida ciclística ou ainda em um baile?
Uma noite, na televisão, eu assisti a uma montagem de La Traviata completamente delirante. O metteur en scène (ou os câmera) iam e vinham à cena como um pai que faz os cem passos na maternidade. Ele fazia o zoom sobre tudo e não importava o que fosse: os tapetes, os sapatos, os pregos do soalho, as próteses de ouro dos cantores...Ele não esqueceu nem os pacotes de detergentes! E, malgrado tudo isso, malgrado o massacre da representação, a fisionomia dos cantores, a lâmpada acessa e, lá fora, as sirenes da polícia que eu ouvia da peça onde estava, fui tomado de tal emoção que eu tinha dos olhos lágrimas de reconhecimento e de felicidade. Talvez La Traviata seja uma absoluta perfeição: o bobo, com sua câmera, não conseguiu destruí-la. Como você quer que, nessas condições, eu pretendesse fazer melhor que Verdi?
1 A boêmia (Puccini).
2 Aida (Verdi).

6.21.2009

Transcaetano À vontade aos 66 anos, Caetano fala de drogas e velhice

À vontade aos 66 anos, Caetano fala de drogas e velhice: “Mulher é adulto, homem é criança”

Caetano fala de sexo, dro­gas, Bra­sil, feminismo, casa­men­to, separação, ve­lhice, pai, filhos, loucura, baladas, mor­­te e do craque de futebol que o país perdeu para a música

Texto por Fernando Luna e Nina Lemos Fotos Fernando Young

Caetano Veloso fala. Quando era adolescente, chegava a passar 40 horas seguidas tagarelando. Ele ri da própria verborragia. Aos 66 anos, ainda tem o que dizer. E continua gostando de uma conversa.
Não é diferente quando recebe a reportagem da Tpm, em um hotel no Rio de Janeiro. Mas, depois de uma hora de entrevista (a quinta do dia, e a esta altura o dia já virou noite), começa a se mexer. “Estou preocupado com o Zeca, ele não está se sentindo bem”, explica.
Antes mesmo de a conversa ter começado, em plena troca de turno de jornalistas e fotógrafos, um assistente soprara para Caetano: “Zeca ligou perguntando se tinha um substituto para água de coco, e eu disse que não”. Tsc, tsc, tsc. “Mas claro que existe, fala pra ele tomar Pedialyte”, receita o baiano, evocando o santo remédio protetor das crianças desidratadas.
É, ninguém é pai de três filhos à toa. Além de Zeca, 17 anos, e Tom, 12, do casamento com Paula Lavigne (de quem está separado desde 2004), Caetano tem ainda Moreno, 36, de sua união com Dedé Gadelha. Moreno, aliás, funciona como uma espécie de água de coco para o pai, um tipo de, vá lá, Pedialyte artística, capaz de reidratar a música de Caetano.
Para começar, foram seus amigos Pedro Sá, Marcelo Callado e Ricardo Dias Gomes que, desde o disco Cê, em 2006, deram street cred às ambições mais roqueiras de Caetano. Depois, o próprio Moreno faz a direção de produção deste Zii e Zie – sim, como você leu em todos os jornais, o título quer dizer “tios e tias” em italiano.
Mas Caetano não paga de tiozinho, não. Nem junto à turma do filho, agora Banda Cê, todos ali nos 30. “Quem foi jovem nos anos 60 e continua produtivo em geral tem algo como eu tenho”, arrisca. Esse algo pode ser definido como inquietação.

Revolução permanente
Pensando bem, isso não é tão comum assim. Mas, como define o amigo e parceiro Jorge Mautner no documentário Palavra (En)cantada: “Tropicalismo é a revolução permanente”. Pois Caetano é o tropicalista. E desde que cantou “Alegria, Alegria”, no III Festival da MPB, em 1967, tenta-se explicar o que, afinal, isso significa.

De volta ao Brasil, em 1972, desembarcando no aeroporto do Galeão, no Rio, depois de três anos de exílio em Londres

Talvez a melhor resposta tenha sido formulada por ele mesmo, ao reagir às vaias, no ano seguinte, quando cantou “É Proibido Proibir”. “Nós tivemos coragem de entrar em todas as es­truturas e sair de todas”, vociferou Caetano, dividindo méritos com Gil.
Entrar e sair de todas as estruturas resume a trajetória de Caetano. Quando acreditaram que ele só queria saber de banquinho e violão, sacou as guitarras. Quando imaginaram que música de protesto era a única saída num país sob ditadura, ficou “Odara”. Quando reconheceram que era chique, mandou “Um Tapinha Não Dói”. Quando queriam confinar o cantor à música, opinou sobre o Brasil. Quando todo mundo entendeu que ele era neguinha, engrossou a voz para dizer: “Eu sou homem/ pelo grosso no nariz”. Quando emendou discos elegantes com standards em espanhol e em inglês, logo quebrou tudo com uma banda de garotos. Quando Radiohead parecia moderno ao permitir que internautas decidissem o preço de In Rainbows, inventou o blog Obra em Progresso, em que os internautas acompanhavam e opinavam no disco Zii e Zie propriamente dito.
E, quando parecia que a entrevista havia acabado antes de terminar (a doença do Zeca, lembra?), Caetano sugere continuar o papo no dia seguinte. Ainda faltava falar de muita coisa. Caetano Veloso fala.

Tpm. Por que gravar agora “Lobão Tem Razão”, oito anos depois de ele dizer para você “chega de verdade”, na música “Mano Caetano”?
Caetano. A música do Lobão me toca como um todo. Mas esse “chega de verdade” é forte demais para mim. Fiquei admoestado, senti que alguma coisa teria que mudar em mim. É uma mania de verdade. A questão não é de ser verdade, é de precisar tanto dizer. A frase ainda tem a mesma repercussão na minha cabeça. Ele tem razão porque não consegui melhorar em nada quanto a isso.

Gil e Caetano, em 1967, ano em que suas canções se classificaram no Festival da Record. Gil com “Domingo no Parque” e Caetano com “Alegria,Alegria"

velhice deixa você mais inflexível? A velhice traz uma espécie de teimosia. Mas em mim percebo mais um descompromisso. Quando se é mais jovem, se toma cuidado para não ser desaprovado. Está se colocando na vida, no mundo. Tem um esforço instintivo para não estragar essa inserção.

O quanto era importante para você a aprovação dos outros? Era importante, ainda é. Porém, na velhice, é aquele paradigma de A Velha Dama Indigna, do [Bertolt] Brecht: uma senhora direita, com filhos e netos, que resolve não ter limitação e começa a fazer o que quer. Já vivi tudo, não devo mais nada a ninguém, o que vou esconder agora? Nada.
Como está sendo a entrada na velhice? Há muitas coisas objetivas. Não usava óculos e agora ando de óculos, senão fica tudo fora de foco. Se tomar um talho, na minha idade demora a cicatrizar. Meus cabelos, que eram cacheados e pretos, não têm mais o cachinho e ficaram brancos.

Com Paula Lavigne e o filho Zeca, em Salvador, 1993

Se a mulher deixa o cabelo branco, todo mundo acha horrível. É verdade. Pessoalmente, gosto de mulheres com cabelo grisalho, acho bonito. Mas uma vantagem da mulher é que ela pode pintar o cabelo. Homem de cabelo pintado fica com cara de político babaca. Tem várias vantagens e desvantagens em ser homem e ser mulher, mas prefiro ter nascido homem.

Por quê? Não sei. Cresci no fim dos anos 40, anos 50, quando as mulheres não tinham mobilidade social nenhuma. Não podiam ir ao bar, sair sozinhas, sair à noite. Era chato para mulher. Eu tinha um pouco de pena das mulheres, era feminista quando criança. Mais do que sou hoje.

Por que ficou menos feminista? Porque também cresci, amadureci, aprendi as coisas da vida [risos].
E as mulheres continuam sem poder envelhecer. Ainda é comum se achar que a mulher deve ser objeto de apreciação, que não pode ter rugas e precisa ser jovem. Isso também está atrelado à biologia, porque os sinais para reprodução são os da mulher jovem. A mulher, depois de uma certa idade, não se reproduz mais. Então, do ponto de vista animal, não precisaria mais produzir excitação sexual. Já o homem não. O homem vai até o fim. Não é mera tolice homens procurarem moças jovens, é uma coisa um pouco hormonal. Não gosto de ser preso a biologia, mas é assim. Gosto muito de mulheres jovens, mas também de mulheres velhas e mulheres de meia-idade.

Você escreveu uma música sobre velhice logo depois que seu pai morreu, “O Homem Velho”, em que definia: “O homem velho é o rei dos animais”. Eu estava ficando maduro, ficando velho. Mas muito menos ­do que hoje [risos]. Achei bonito dizer aquilo como uma lembrança de meu pai. Ele era um homem muito altivo, mas suave e elegante. Muito bom, muito equilibrado, muito respeitado na cidade inteira. Então, era um entusiasmo afirmativo diante dessa figura patriarcal benigna.
Existe alguma cena que resuma a relação de vocês? Tem uma muito forte que sintetiza tudo. No dia em que saí da prisão [em 1969], a soltura não foi bem uma soltura. Quando Gil e eu chegamos a Salvador no avião da FAB, acompanhados do chefe da polícia federal do Rio de Janeiro, tinha uma ordem de prisão antiga. Aí fomos jogados numa cela de novo. Só soltaram a gente à noite. Saímos sem dinheiro, meio apavorados. Quando chegamos à minha casa, só tinha Nicinha, minha irmã de criação mais velha. Meus pais e meus irmãos tinham ido para o aeroporto e não sabiam que a gente tinha sido detido de novo [por mais algumas horas]. Quando vi a casa toda vazia, fiquei louco. Louco, louco, uma coisa terrível. O mesmo negócio que senti quando tomei ayahuasca, uma coisa que não dava na cabeça. Corria de um cômodo para o outro, gritava, chorava. Pensei: “Pronto, não existo mais”. Aí chegaram as pessoas, meu pai na frente. Quando ele me viu, falou assim: “O que é isso? Não me diga que você deixou esses filhos da puta te botarem nervoso?”. Fiquei bom. Na hora! Abracei ele e comecei a chorar. Foi uma ordem. Se meu pai não tivesse chegado, estava louco até hoje.
Seu pai sempre passou essa segurança? É. Ele falou “filhos da puta”, e não era de xingar, nada, nunca. Mas naquela hora ele falou mesmo. Aquilo foi tão forte. Como ele tinha desprezo pela ditadura militar, sentia orgulho por eu ser definido como inimigo.

E você, é muito diferente ser pai aos 30 e aos 55 anos? Basicamente, não. Filho é a coisa mais intensa que há. Eu não queria ter filho. Dedé [Gadelha, primeira mulher de Caetano, mãe de Moreno] e eu tínhamos decidido não ter filhos. De repente me veio uma vontade, justamente no fim do exílio, pensando que voltaria ao Brasil. Dedé ficou alegre depois que chegamos e topou. Moreno nasceu, e aí mudou tudo.

Moreno é filho da geração hippie, filho de hippies. Ele podia tudo? Não. Vi muita gente confusa, permissiva, em relação a isso. Não foi meu caso.

É aquela história de saber o que dizer e o que não dizer na frente das crianças. Justamente. Lembro que Moreno entrou numa escola que era muito aberta. Na primeira reunião de pais e mestres, o diretor e os professores falavam como a escola tinha que ser atraente, agradável e interessante. Pedi a palavra: “Olha, acho que a escola deve ser chata. Tem um aspecto que a escola deve admitir de ser uma instância chata na vida da gente, e que isso é fundamental para as crianças”. Moreno depois veio me dizer: “Pai, tá todo mundo falando que você é o maior careta” [risos].

Sua escola era chata? Escola é chato. Mas gostava também, porque a gente encontra outras pessoas. E você tem umas tarefas a cumprir, tem que mostrar que aprendeu.

Ainda com cachinhos, em 1967, interpretando “Alegria, Alegria”, canção classificada em quarto lugar no Festival da Música Popular Brasileira, na TV Record

E você não gostava de futebol, o que deixa a escola mais difícil para os meninos. Hoje é um paraíso, comparado com o que era nos anos 50, 40. Moreno e Zeca nunca jogaram futebol, e nunca ninguém achou que eles eram veados por causa disso. Tom joga lá no Zico [CFZ, Centro de Futebol Zico]. No meu tempo, não existia você não jogar futebol. Era a mesma coisa que chegar de vestido franzido cor-de-rosa.

Você tentava jogar? Tentei. Peguei uma bola e fiquei treinando, assim, na parede. Tentei fazer um pouco de embaixadinha, levantar a bola e bater sem ser bicudo. Ficava jogando na rua, em Santo Amaro, e também no quintal enorme da casa. E pensei, sozinho comigo mesmo, que se quisesse jogar futebol seria um dos melhores jogadores que há. Mas não tinha a menor vontade.

Numa entrevista à Trip, você disse que poderia ser um gênio se tivesse se dedicado a isso. É a mesma coisa, né? Sabe que penso assim? É um absurdo isso [risos].

O mundo perdeu um Pelé e ganhou um Caetano. Aí vocês vão dizer que sou modesto, mas não tem comparação. Pelé é muito maior. Ele fez o negócio que tinha que fazer. Eu não.

Você não fez o que deveria fazer? Todo mundo tem um pouco essa sensação, eu tenho bastante.

­­E o que deveria ter feito? Alguma coisa para a qual tivesse uma vocação. Até tenho vocação para o que faço, mas ter o talento definido. Tenho talento definido para outras coisas que não fiz. Eu seria melhor para desenhar ou pintar, para fazer cinema ou para escrever.

Além do futebol. Para futebol não tenho talento. Deixei falar de Pelé, mas pensei assim: “Poderia jogar muito bem”. Vi que podia, mas não tinha interesse. Achava chato ficar trombando nos outros meninos. Eu era muito feminino. Subia no araçá [goiabeira] e ficava cantando a tarde inteira.

Os outros meninos achavam você muito esquisito? Me achavam meio assim, pouco masculino. Demonstravam às vezes, mas eu era muito amigo, muito inteligente para conversar, tinha muitos amigos na escola. Só uns meninos mais grosseiros que às vezes comentavam alguma coisa como “não é homem, não? Não joga futebol?”.

Em seu livro Verdade Tropical, você fala de hétero, homo e bissexualidade. Hoje essas definições são menos importantes? Pode ser sim. Também pode haver um grande retrocesso, existem muitos movimentos religiosos que apontam na direção oposta. Mas, no Ocidente moderno, houve uma ampliação do entendimento da sexualidade. Somos sexuais, e não heterossexuais ou homossexuais.

Este Zii e Zie é bem sexual, embora nem tanto quanto o anterior, Cê. Como está a sexualidade nesta chegada à velhice? Olha, para mim tem a mesma importância que sempre teve. Sou do time que acha sexo a coisa mais importante que há. Tipo Freud [risos]. Uma manifestação essencial de tudo.

Voltando ao que você deveria ter feito, por que você foi fazer música, então? Passividade total diante do que aconteceu. Tinha interesse em música, um conhecimento muito grande. O Alvinho Guimarães, que era um diretor de teatro de Salvador, ficou muito impressionado. Eu tinha uma capacidade de articulação bem parecida com a que tenho hoje. E ele me chamou para fazer a música da peça. Eu disse: “Não sei fazer música, eu falo sobre música”. Ele falou: “Tem que ser você, não tá tocando violão?”. Fiz, e todo mundo achou maravilhoso. Aí me apresentaram a Gil, que eu via na televisão e achava o máximo. Gil me adorou, achou que eu tinha que fazer música, que aquelas bobagens eram maravilhosas. Duas vezes quis deixar de fazer música e Gil não deixou.
Quando? No fim do período da Bahia, quando a gente ainda era novo. E, mais tarde, depois do fim do tropicalismo, antes da prisão. Queria comprar uma Kombi e sair fazendo uns espetáculos pelo Brasil. E depois deixar tudo, ir fazer filme, escrever. Gil falou nitidamente: “Se você deixar de fazer música, também deixo”.

Jogou pesado. Muito pesado. Então fui ficando, e depois fui preso. Aí teve o negócio de quase ficar louco, o exílio, e perdi um pouco daquela determinação. Fiquei mais acuado para mudar. A música era a única coisa que tinha, era real. Estava me agarrando à realidade. E gosto muito de música.

Então vamos falar de uma música nova. Em “Lapa”, você canta que “Pelourinho Vezes Rio é Lapa”. Essa equação de algum jeito resolve o Brasil? Logo os primeiros versos dão todo o histórico de como é esse negócio para mim: “Samba Canal 100 no meio dos 60/ E nos 70 era o largo da Ordem”. Quando eu era menino, não existia Canal 100 [cinejornal sobre futebol]. Tocava fox quando passava futebol, resquício de que era um esporte britânico. Não havia vinculação entre futebol e samba. Eu pensava que, se colocassem samba no futebol, o Brasil iria se afirmar. Aí apareceu o Canal 100 com aquele samba “Que bonito é.”, uma coisa maravilhosa. Isso é de uma importância enorme, era o Brasil vindo.

O trio musical da Banda Cê, que acompanha Caetano: da esq. para a dir., Pedro Sá, Ricardo Dias Gomes e Marcelo Callado, que estão no lançamento de Zii e Zie

E o largo da Ordem? Quando voltei de Londres, Curitiba se tornou minha cidade favorita. O Jaime Lerner tinha recuperado o largo da Ordem, que tinha a arquitetura mais tradicional da cidade. Mas Curitiba não tem relíquia arquitetônica. Zero, se comparar a Salvador, São Luís, Rio de Janeiro. Olhei para aquilo e disse: “Não posso nem sonhar, mas se isso fosse feito na Bahia ou em São Luís ou no Recife.”.

Seria como juntar samba e futebol. Entendeu? Não deu outra. Uma década depois, Antônio Carlos Magalhães fez a recuperação do Pelourinho. Quando aconteceu, nem queria ouvir reclamação do pessoal de esquerda, que dizia “mas as pessoas foram removidas.”. Conversa chata, demagógica. Aquela própria gente se beneficiaria tão mais de aquilo ter acontecido. Eu via aquilo como uma afirmação [do Brasil]. E era, e é. Depois, isso foi acontecendo na Lapa, de um jeito menos oficial que na Bahia. Fiquei muito emocionado. No Rio, esse efeito se multiplica, é muito maior. Levei uma amiga americana lá, e ela ficou impressionada como a Lapa era vital, elegante e popular.

Você continua saindo à noite? Ah, sim. Gosto de ir aos lugares, de estar com as pessoas. Sou animado. Agora, a resistência é menor. Envelhecimento é isso. Demora para se recuperar de uma noite de cansaço, de uma balada. Eu emendava todo fim de semana na Bahia. Bebia muita cerveja e cachaça, e quando chegava segunda-feira estava novo. Depois foi ficando difícil. Já com 30 anos as ressacas eram insuportáveis. Foi ficando pior. Tô cheio de beber.

Não bebe mais nada? Bebo só na terça de Carnaval. Este ano, bebi à beça.

Na Quarta-feira de Cinzas você deve ficar com a pior ressaca do mundo. Mas todo mundo está, então fico mais ou menos. Tem pessoas que estão bebendo desde quinta, e eu só bebi na terça.

Em “Falso Leblon”, você fala de uma balada com ecstasy, que é uma droga da sua geração. Não tem uma incompatibilidade com essa turma mais nova? Não tenho incompatibilidade com nenhuma geração boêmia. Com alguns caretas sim. Mas não gosto de droga, não tomo nada.

Nunca experimentou ecstasy? Nunca. Já sofri demais com negócio de droga, não suporto. Nunca fui viciado nem me acostumei. Cheirei lança-perfume aos 14 anos e tive pavor. Fumei maconha com 23 e tive horas de pânico absoluto. Tomei ayahuasca e passei dias de horror e um ano de angústia. Agora, convivo com todo mundo.

O medo das drogas passa pelo medo de ficar louco? Totalmente.

Ainda tem medo de ficar louco? Tenho. Não gosto de perder a consciência nem a razão.

O que você achou do FHC defendendo a descriminação da maconha? Gostei muito. Também gostei quando o Chico Buarque se manifestou a favor da legalização das drogas. Deveriam ser todas legais. Não gosto de pensar que as pessoas só não tomam droga porque é proibido. O álcool não é proibido, mas não é que a maioria da população seja alcoólatra.

Você saiu de um casamento longo, como está a vida de solteiro? A princípio, senti dificuldade, mas ao mesmo tempo sentia a animação da novidade. Nunca tinha sido solteiro. Saí de dois casamentos longos, minha tendência se provou ser para casamentos longos. Vivi na casa de minha mãe até sair com Dedé, e ainda estava com Dedé quando comecei com Paulinha [Lavigne]. Não pude viver solteiro, ter uma casa minha. Depois melhorei, fui melhorando, hoje gosto muito. Moro com meu filho Zeca, e é muito bacana uma casa com dois caras.

Você casaria de novo? Não pensei em casar nem da primeira vez.

Se pensar, não casa. Existe um folclore generalizado de que os homens não querem casar. Acho que o homem depende mais do casamento do que a mulher, ficam mais desamparados quando se separam. Mulher é adulto, homem é criança.

Você ficou surpreso, como diz a música “Sem Cais”, ao se dar conta de que “ainda posso me apaixonar”? Isso tem a ver com certas experiências minhas. Pensei que não fosse mais capaz, mas já faz tempo que descobri que talvez seja. Às vezes, você vê uma pessoa e percebe que poderia [se apaixonar], e nisso você sente tudo. Em geral, você se apaixona antes de encontrar alguém. Quando encontra, pode preencher e aquilo se potencializa, se materializa.

Já que você citou Freud antes, vamos falar da pulsão de morte. Como você lida com a morte? Sempre tive medo da morte, desde menino. Acho que sou menos angustiado hoje do que quando era novo.

Não devia ser o contrário? Claro que, sendo velho, vou viver muito menos do que já vivi. Acho que não é tão frequente os mais jovens terem menos medo da morte que os velhos. Não estou certo, mas acho que não é.

Sua insônia tem a ver com angústia? Tem. Mas tem a ver também com uma animação. Dormir nunca foi fácil para mim. Desde criança, não queria dormir. Preferia acompanhar as conversas dos adultos, os programas de rádio. Não gosto de apagar, de parar de conversar, de viver, de ver filmes, pessoas, fazer coisas. Agora, isso também pode ser uma face da angústia, talvez você confunda sono com morte, ou uma coisa assim.

Com 20 e poucos anos, você escreveu que seu coração “não se cansa de ter esperança de um dia ser tudo o que quer”. Aos 66 anos, chegou lá? Ainda não. Mas reitero que meu coração não se cansa.

6.18.2009

Twitter no meu nome é mentira, diz Wagner Moura


Enviado por William Helal Filho -

Na Megazine desta terça saiu uma entrevista ótima do nosso Conselho Jovem com o baianíssimo Wagner Moura, superator de 32 anos que, atualmente, estrela e produz o espetáculo "Hamlet" (a peça entra em cartaz na quinta-feira agora no Teatro da Uerj). Publicamos vários trechos da conversa na versão impressa da revista, mas muita coisa legal (muita mesmo) ficou de fora, por questões de espaço. Segue aqui, então, o bate-papo completo. Ah, quem não conseguiu ver o "Hamlet" do Wagner no Teatro Casa Grande porque o ingresso estava muito caro, aproveite agora. As entradas na Uerj custarão R$ 30 (inteira), mas não vai comer mosca... o espetáculo fica lá só de quinta a sábado desta semana.

MAYÃ FURTADO: Por que a preocupação em fazer algo poético, sem ser rebuscado?
WAGNER MOURA: Sempre se falou de Shakespeare como um autor para intelectuais. Muito por causa dos diálogos rebuscados. Mas ele foi um autor do povo, um gênio popular. E a nossa peça tem texto direto. Não traduzimos “go” por “ide”. “Go” é “vá”. Isso aproxima. É despojado sem abrir mão da poesia. Porra, “Hamlet” é novela. O fantasma chega para o garoto e diz: “Mermão, seu tio me matou. Vinga”.

LUCAS DE TOMMASO: Por que levar a peça à Uerj?
WAGNER: Serão só três dias, então não vai ser algo transformador. Mas no Teatro Casa Grande eu cobrava 80 pratas, e muitos não podem pagar. Teatro não é arte popular como show na praia. O Casa Grande cobra percentual altíssimo por peça, e, se não cobrasse aquele preço, eu teria prejuízo.

LUCAS: Você apoia a cotização da meia?
WAGNER: Sou a favor como medida de choque. Na minha peça, 75% das pessoas pagam meia. É outro motivo para o valor do ingresso. Chega o cara barbudão de carteirinha, e você vai falar o quê? Até rádio distribui carteira. Tem que moralizar. E tem mais: quando o governo diz que o estudante tem que pagar meia está onerando o setor cultural. Quem paga por isso? O artista. Ora, eu também acho que todo jovem deveria pagar meia no ônibus, por exemplo.

LUCAS: Como explicar o sucesso de figuras controversas como Olavo (“Paraíso Tropical”) e Capitão Nascimento?
WAGNER: Fiquei assustado com a reação das pessoas ao “Tropa de elite”. A falência da segurança pública fez a sociedade ver um torturador como herói. Tem algo errado com a gente, não com o filme. A mesma coisa com o Olavo. Ele era divertido, claro. Mas, se houve uma aceitação à conduta corrupta
dele, o erro foi das pessoas.

LUCAS: Você é a favor da legalização da maconha? O consumidor financia o tráfico?
WAGNER: Sou a favor, mas não é solução. Tem que discutir. Acho grave não debater um assunto social por uma questão moral. E, evidente, se não tivesse consumo, não teria venda de drogas. Mas o consumidor é o lado mais fraco, e a sociedade sempre consumiu drogas. É questão de saúde pública, não de segurança. Tem que dar opções. Se tivesse emprego, cultura, saúde e dignidade, a juventude não iria para o tráfico.
ROBERTA ABREU: No personagem de “Ó paí, ó” tem mais Wagner que no "Hamlet"?
WAGNER: Tudo sou eu. O ator é o cara que mais tira as máscaras. Se o personagem não estiver em você, você não faz. Todo personagem sou eu.

DANIEL: O Nascimento o deixou mais agressivo?
WAGNER: Não é algo psicótico, mas fica uma coisa no ar. O “Tropa” foi uma parada louca. A gente foi treinado pelo Bope. Não tinha essa de ator. É muita loucura... Na preparação, eu não queria saber de fil-
me. Só queria sobreviver àquilo tudo.

LUCAS: Como vai ser a continuação do “Tropa”?
WAGNER: O primeiro fala da corrupção da polícia e de como afeta a sociedade. O segundo filme vai por caminho muito mais assustador, que mostra a promiscuidade da polícia com a política. Como um deputado influencia na indicação do comandante de um batalhão, por exemplo. E o filme vai falar ainda sobre o surgimento das milícias, que são um crime organizado. Eles elegem vereadores e têm bancada. É punk.

LUCAS: Contra o que você luta na vida? O judô o ajuda?
WAGNER: Minha luta básica é contra o medo e a calvície (risos). Muita gente deixa de ir adiante por um medo inexplicável de correr atrás. E um meio de combater isso é olhar dentro de você. Pratico artes
marciais, e isso dá autoestima. O judô ensina a cair e levantar e a derrubar com respeito. Também medito. Qualquer exercício de autoconhecimento é válido.

ROBERTA: Como você concilia as necessidades do seu filho com o trabalho?
WAGNER: Quero ser presente na vida dele. Um dos grandes problemas de segurança pública é falta de pai. Eu quero que meu filho tenha um pai, e represento bem esse papel.

LUCAS: Você acha que a fama tem preço?
WAGNER: Parece que todo mundo que fica famoso tem que fazer parte de uma brincadeira. Não suporto essa coisa de “preço da fama”. Estou trabalhando e gosto de ser reconhecido. Mas nunca quis ser celebridade. Essa coisa armada para você ser diferente, posar na revista mostrando o seu labrador... Não venha me forçar a fazer parte desse mundo.
ROBERTA: A sua montagem da peça "Hamlet" ajuda a quebrar essa coisa de o público sempre ver Shakespeare como um autor só pra intelectuais?
WAGNER: Estamos contribuindo para isso. "Hamlet" não é peça pra iniciados em Shakespeare. Até porque, na época, ele fazia peças pra galera mesmo, pensando no grande público. Era um gênio, mas um gênio popular. O nome "merda" (que no teatro quer dizer "boa sorte") tem origem nesse tempo. Veio da quantidade de bosta de cavalo na frente do teatro. Quando alguém desejava "merda" para um autor ou ator era porque queria ver o teatro lotado, com muitos cavalos parados na porta.
LUCAS DE TOMMASO: Você teve muitas criticas poisitivas mas algumas negativas também...
WAGNER: As criticas para nossa peça foram maravilhosas, com exceção de algumas. Mas, de uma maneira geral, tenho a impressão de que qualquer pessoa escreve sobre teatro. Faltam profissionais qualificados e qualquer opiniao é aceita. Não posso dizer isso sobre a Bárbara Heliodora, claro, que é uma especialista em Shakespeare (a crítica do GLOBO "detonou" o espetáculo de Wagner). E também não esperava que ela fosse gostar da nossa peça, até porque não usamos a tradução da mãe dela. Respeito a opinião da Barbara, mas, de resto, 80% do que leio sobre teatro é bobagem.
LUCAS: Versatilidade é fundamental pro ator?
WAGNER: Não acho. Gosto de fazer coisas diferentes, porque me instiga. Mas um ator que amo e que não é exatamente versátil é o Pedro Cardoso. É um dos maiores do Brasil, um gênio. Mas não se preocupa em fazer coisas diferentes. Ele tem uma persona muito forte. Assim como tinham Grande Otelo e Oscarito.

DANIEL FRAIHA: O que você acha dessse culto à futilidade na mídia de hoje?
WAGNER: Nós vivemos tempos futeis. É muita informação, então a chance de metade disso ser bobagem é grande. Acho que está faltando a gente se olhar mais. Todo mundo perde tempo na TV ou na internet, e essas coisas mais leves oferecem um relaxamento. Não sou contra. Mas tem que dosar. É foda quando a oferta de bobagem é grande e você se afoga. Bobagem é ótimo, mas você vai, dá uma risada e volta para questões reais. O mundo virtual afastou as pessoas. Aliás, sei que tem gente no Twitter se fazendo passar por mim. Mas por favor diga que isso é mentira. Não faz sentido isso.

DANIEL - O Capitão Nascimento te influenciou? Você ficou mais agressivo?
WAGNER: Não é algo psicótico. Mas fica uma coisa no ar que influencia, sim. A preparação do "Tropa" foi uma parada muito louca. A gente era treinado pelo Bope o tempo todo. E como soldado, não tinha essa de ator. Então, pense numa coisa louca... Nenhum ator americano se submeteria àquilo. Não queria saber de filme, só queria sobreviver.
LUCAS - Você se inspirou no seu pai para interpretar o Capitão?
WAGNER: Não, meu pai era um doce (risos). Perto do Capitão meu pai era uma moça (risos).

DANIEL - Você tem vontade de voltar para a Bahia?
WAGNER: Eu quero comprar uma casa na Bahia, porque meu filho nasceu no Rio e não quero que ele perca o contato com a terra. Porque a Bahia é massa (risos)!

DANIEL - Eu soube que você voltou a tocar com a sua banda?
WAGNER: É uma banda que eu tinha com 15 anos. A gente sempre tocou em Salvador, entre a gente mesmo. Fizemos shows memoráveis (risos). Mas o Edgard do Multishow me chamou pra uma entrevista e pediu pra chamar a banda. Aí veio todo mundo. A partir desse lance a gente recebeu muitos convite para tocar. São três jornalistas, um contador e eu. Vamos gravar em outubro. Mas eu nunca vou deixar de ser ator. Sou ator que canta, ou que já cantou, sei lá.... Eu sou baiano (risos).

5.28.2009

Entrevista com Caetano Veloso


por Giuliano Cedroni

É assim que Caetano Veloso se mostra do alto de seus 66 anos: como se tivesse acabado de nascer – de novo. Em turnê pelo país com Zii e Zie, seu novo álbum de rock, está otimista com o Brasil de Lula, FHC, Serra, Dilma, Aécio, Ciro...

Caetano Veloso morreu. Também sinto muito... Aquele do tropicalismo, aquele dos Doces Bárbaros, do Cinema Falado, de Transa e Joia, que já não era o mesmo de Verdade Tropical nem de Qualquer Coisa... Aquele Caetano morreu. O Caetano dos ternos bem cortados, da apresentação no Oscar, da Paula Lavigne... Kaput. Talvez ainda reste um pouco do Caetano de Sampa, de Fina Estampa e Cê... Se bem que também não. O Caetano de hoje, mesmo, já não é nem o Caetano da entrevista que você tem em mãos, feita no fim de abril. O Caetano de hoje é o novo, e o novo é para poucos.
Um dos artistas mais completos em atividade no Brasil, Caetano está, segundo o próprio, entrando na “infância da velhice”. E está muito à vontade com isso. Nada de lipo, botox ou tinta no cabelo. No lugar de camisas peroladas, uma jaqueta jeans rasgada. No lugar de sapato bico fino, tênis baixo. E o baiano nunca esteve tão bonito...

Aos 66 anos, avô duas vezes, Caetano Emanuel Vianna Telles Velloso acaba de lançar seu álbum de número 42, o Zii e Zie. Musicalmente é uma continuação do anterior Cê, com a mesma jovem banda intitulada... Cê. Mas as letras deste de nada lembram as daquele. Se em Cê ele registrava sua separação de Paula Lavigne, mãe de dois filhos seus, agora ele canta Guantánamo, Leblon, Lapa, Lula, FHC, canta também outras mulheres e sobretudo o acerto do rock. Em todos os sentidos.

Caetano recebeu PODER num estúdio de som onde ensaiava para a turnê que tinha sua estreia marcada pra dali uma semana. Rodeado por garotos – sua banda é formada por três jovens músicos, dentre eles o brilhante guitarrista Pedro Sá –, o tropicalista consegue a difícil façanha de transitar entre a juventude sem parecer ridículo. Ao contrário, Caetano tem no olhar o brilho de um menino faminto por novas aventuras, com a diferença de que agora é senhor de seu próprio destino. Falou com pressa, afinal precisava ensaiar, e nesse momento de sua vida nada é mais importante que sua música. Críticas, mídia, flashes, nada disso é relevante. Isso sim é poder. E para lhe adocicar a boca entre uma resposta e outra, a mesma Coca-Cola de sempre.

Veloso falou de Cê & FHC, de Lula & Obama, de Veja & Daslu, de Mangabeira & Gabeira e de como ele próprio “não seria ninguém sem o samba”. Ouvindo-o, me dei conta de que seu maior poder é o de se reinventar. Poderia fazer como a maioria e criar mais do mesmo, nadando nas águas tranquilas de quem domina um único estilo, um único discurso. Todos os seus colegas fazem isso, até mesmo seu mestre João Gilberto. Mas não. A cada novo movimento artístico lançado, Caetano se arrisca e chega junto. Foi assim com o rock dos anos 80, com o mangue, o rap, o funk carioca. Sem mencionar o baião, o forró, o folk, o axé, o sertanejo, o jazz, o coco.

Não tem jeito, Caetano não censura nem tem censura. Sofre da total falta de preconceitos, o que talvez explique o talento de se repensar de forma verdadeira e periódica. Poucos músicos de destaque no mundo conseguem tal proeza. Podemos contar nos dedos: Dylan, Madonna, David Bowie, Byrne. Talvez Bono, quando não está tentando salvar o mundo. No Brasil só mesmo Tom Zé. Zii e Zie vem para provar isso – mais uma vez. E prova também que o garoto de Santo Amaro da Purificação chegou num altar no qual não se trata tanto do resultado e sim do processo. His journey is the destination. Enquanto o camaleão estiver interessado em novos olhares, novos cortes de cabelo, novas gírias... estaremos salvos. Caetano é o satélite avançado que filtra o melhor do novo e nos devolve em ondas clássicas. É o surfista prateado do Brasil. Em um aforismo irresponsável, é o próprio Brasil.

“Acho melhor ser do que não ser.” A frase, que talvez resuma a si próprio, foi dita num jardim de bambus no Japão, quando Caetano excursionava com o álbum A Foreign Sound. A cena foi incluída no corte final de Coração Vagabundo, documentário de Fernando Grostein Andrade que segue o baiano por shows em São Paulo, Nova York, Tóquio e Osaka. Com estreia marcada para julho deste ano, o filme traz um retrato inédito do artista em um momento de profunda transição que, de certa forma, culminou em Zii e Zie. “Eu sou do sol, quero ser lúcido e feliz”, declara. E é assim que ele se mostrou na entrevista a seguir, lúcido e feliz.

PODER: No seu novo álbum, tem-se a impressão de que o som é mais calmo, mas, ao mesmo tempo, as letras são mais amplas e fortes que em Cê. É isso mesmo?
CAETANO: Não sei se as letras são mais fortes, mas seguramente são mais amplas. Cê é muito restrito, quase que um tema só. É uma letra, né? C...

PODER: Você já tocou com bandas grandes e músicos consagrados. Agora está com três garotos. Como tem sido a experiência?
C: Muito boa. Eles são muito, muito bons e nosso diálogo é muito claro. O gosto musical, a decisão a respeito de arranjos, a escolha de canções – qualquer coisa que um de nós diga, os outros três entendem logo. Não há nem tempo para pensar em como funcionam as diferenças, entendeu? É muito imediata nossa comunicação: fala, a gente sabe; toca, já entende.

PODER: Na canção “Falso Leblon”, você faz uma descrição interessante da cultura de baladas, ecstasy e maconha. Voltou a se interessar pela boemia jovem?
C: Eu nunca me desinteressei dela. Mas não gosto de drogas. Odeio cocaína. Tudo: odeio a maneira como as pessoas aspiram, odeio o fedor do corpo de quem cheira. Odeio a cultura de economia paralela ilegal que cresceu por causa do consumo da cocaína. Da boemia, me interessam as pessoas.

PODER: Com o aparecimento das drogas sintéticas, o consumo de cocaína teria diminuído. Mas, agora, os números indicam que voltou com tudo. Você sente isso nas suas andanças pela jovem boemia?
C: Eu ouvi falar isso que você está dizendo. E fico triste. Veja a cocaína em forma de crack, por exemplo. O crack é o único negócio que me balança. Seu efeito é muito rápido e destrói muita gente pobre e desavisada. Seu aparecimento abalou minha decisão de princípio, que é ser a favor da legalização das drogas.

PODER: Outro dia, você escreveu no seu blog: “Folha, Veja, Fasano, Daslu, Sala São Paulo, Museu da Língua Portuguesa. Tudo isso faz pensar o quanto Sampa é influente e interessante”. Não é novidade que você tem uma relação conflituosa com a Veja. Mesmo assim acha que a revista faz de São Paulo uma cidade mais interessante?
C: Não há dúvida e isso não depende de concordância. Mas não estava ali fazendo qualquer julgamento moral ou político. Muita gente ficou ofendida por eu incluir não a Veja, mas a Daslu e até o Fasano. Eu acho a Veja mais complicada do que a Daslu. Mas não estava preocupado com isso. É apenas uma lista de coisas que mostram a força da cidade.

PODER: Veja criticou duramente seu novo disco...
C: Eu não li. Até quero ler. Eu leio a Veja às vezes, sabia? Quando viajo de avião eu compro. Porque é uma revista boa, dá pra ler. A gente fica com raiva de umas coisas, ri de outras. Você tem a Veja que fala do nosso disco, Pedro [Sá, guitarrista da banda]?. Me empresta? Eu vi você falar um pouco mas não sei o conteúdo...

PODER: No release do álbum à imprensa, você diz que o disco saúda a era FHC-Lula e a ambição do Brasil de ter uma ascendência no cenário internacional. Ao mesmo tempo, estamos vivendo um período de descrença nos políticos...
C: Uma descrença nos nossos parlamentares, né? Por outro lado, nunca vi político tão bem aprovado e tão bem equilibrado quanto o Lula. FHC, enquanto foi bem avaliado pela população, também era assim. O aspecto ideológico, a ideia de melhorar a sociedade, isso veio com a esquerda – que sempre esteve muito descolada da prática real. O Lula faz bem essa jogada de representar os anseios da esquerda e ser superpragmático. Ele e FHC marcam um nível muito elevado entre governantes.

PODER: No passado, eram da mesma turma.
C: No conjunto, é muito bom que FHC tenha vencido as eleições por causa da criação do Plano Real, e que Lula tenha mantido isso. Acho muito cafona o José Dirceu falar em herança maldita, já que o governo Lula continuou a política econômica que foi instaurada antes. Henrique Meirelles é uma figura mais representativa daquilo que Lula combatia quando estava na oposição do que qualquer outra do governo FHC. O antagonismo PT-PSDB é superficial, eleitoral e fingido de ambas as partes. Tudo bem, política tem esses componentes também, mas não submeto minha observação a essa mascarada

PODER: Esses aspectos são mais importantes do que a discussão da lama no Congresso?
C: O Brasil produziu figuras políticas como Marina Silva e Fernando Gabeira. São figuras que, independentemente do que vem acontecendo no plano mais genérico, têm uma responsabilidade ética, têm ideias às quais devem lealdade. E são acompanhadas, conscientemente, por grandes grupos da sociedade. Isso é uma coisa nova, boa, diferentemente do acompanhamento meramente fisiológico e do acompanhamento ao estilo torcida ideológica, como a esquerda fazia antes.

PODER: Você parece otimista diante do nosso cenário político...
C: Estou dizendo que esses aspectos são melhores do que esses outros, horrendos, de que todo o mundo fala.

PODER: A farra das passagens aéreas no Senado acabou atingindo o próprio Gabeira. Acha que ele se saiu bem fazendo um mea-culpa?
C: Gabeira agiu como sempre age. É até muito notável que ele seja parlamentar há tanto tempo e tão pouco da cultura atrasada politicamente o tenha contaminado. Todos no Brasil sabem quem é o Gabeira. E a Marina Silva também – é um grande quadro. Depois, é importantíssimo que o Lula tenha finalmente convidado o Roberto Mangabeira [Unger] para o governo.

PODER: Você o apoiava antes, não é?
C: Desde os anos 80 que apoio o Mangabeira. A imprensa se recusava a botar minhas declarações. Por mais de dez anos cortaram o nome dele das minhas entrevistas. Você que é da imprensa deve dizer: não é inacreditável?

PODER: Se te dessem poder para mudar a estrutura política do país, você teria hoje alguma ideia aprumada do que fazer?
C: Não, mas o Roberto Mangabeira tem. Não estou dizendo que suas ideias se tornariam benéficas – mas ele tem ideias e elas são interessantes.

PODER: O que você achou da sugestão, um tanto irônica, do senador Cristovão Buarque de fazer um plebiscito para decidir se o Congresso deve ou não continuar existindo?
C: Não sou muito plebiscitarista não. Porque você não pode ficar fazendo plebiscito para tudo, senão vira a ditadura da maioria. Não é assim. Mas eu gosto de Cristovão, acho ele bacana, aquela ênfase na educação... É um velho negócio brasileiro, isso de que a educação vai resolver tudo. É importante mesmo. Se alguém pegar esse assunto com garra e disser que vai botar isso para funcionar, pode representar uma grande mudança para o Brasil. Agora, isso de plebiscito para ver se tem ou não Congresso, não acho interessante. Tem de mudar as regras a partir de como elas são. Congressista não tem de ter muita vantagem, tem de ter é desejo de contribuir. Sua atuação não deveria representar uma subida na escala social e econômica. Não deveria ter esse apelo. Você deveria querer ser deputado para contribuir na organização das coisas.

PODER: O cenário das próximas eleições para presidente apresenta até agora quatro candidatos: Serra, Aécio, Dilma e Ciro. Tem alguma preferência?
C: Não. Já votei no Ciro. Gosto dele desde que foi prefeito de Fortaleza. Mas, quanto mais se aproximou do poder central, mais apareceram nele características que me deixariam preocupado caso ele tivesse poderes mais amplos. Eu o achei um pouco destemperado e um pouco como se estivesse deslumbrado demais consigo mesmo. Sinto dizer isso, porque quero bem a ele demais. Eu o sinto de longe como um amigo. Estou dizendo isso com sinceridade. Agora, de alguma forma, Lula está certo: os candidatos são todos bons, todos de esquerda. Não acho que ser de esquerda é necessariamente bom, não. Mas, no caso dos quatro, são quatro bons candidatos de esquerda.

PODER: Vivemos hoje uma terrível crise financeira mundial e uma das grandes frases do Lula sobre o assunto foi aquela em que, ao lado do primeiro-ministro Gordon Brown, culpou os brancos de olhos azuis. O que achou da declaração?
C: Li um artigo da Maureen Dowd, do New York Times, que achei muito interessante. Até traduzi e botei no meu blog. Apesar de dizer que o Lula estava querendo competir com o papa em falar besteira (o papa tinha dito que a camisinha espalha a Aids), ela termina constatando que a sua fala tinha tocado em um nervo sensível e real. Lula tem isso, né? Ele está sempre correndo o perigo de passar do limite. Tem realmente uma intuição rica e profunda. A história dele, a personalidade, tudo contribui para que ele tenha isso.

PODER: Na semana seguinte Obama o encontra e diz que ele é o cara...
C: This is my man! E depois fala que ele é boa pinta. Não é, né?...

PODER: Qual o sentido de um sujeito como Obama assumir a Presidência dos EUA?
C: Tem um valor simbólico tal como o caso de Lula e, por outro lado, significa de fato a disposição da revolução americana, que é uma revolução em curso. Os EUA são um país revolucionário. E que permanece fiel aos princípios da sua revolução, na medida do possível. A eleição de Obama vai contra tudo o que Bush representou e que estava já demasiado longe dos ideais da revolução.

PODER: Com Obama, os EUA estão tentando se reinventar. O Brasil também tem essa capacidade?
C: O Brasil tem mostrado ao longo do tempo muita incompetência. Mas desenvolveu uma superação disso que aos meus olhos é consideravelmente rápida. Você devia ler – e recomendar a todos que lessem – uma entrevista recente do Mangabeira na Gazeta Mercantil. Ele fala sobre como uma crise pode ser uma oportunidade para o Brasil. Eu, de minha parte, observo que o Brasil partiu de situações bastante desvantajosas e convive com situações especialmente desvantajosas. O próprio fato de falarmos português é uma enorme desvantagem comparativa. No entanto, é também uma bênção. Se não tivessem sido os portugueses os colonizadores do Brasil, não haveria o samba. E eu não posso me imaginar sem o samba. Nem a mim, nem ao Oscar Niemeyer, nem a Marilena Chauí.

* O jornalista e roteirista Giuliano Cedroni é diretor de conteúdo da Prodigo Films. Ele assina o roteiro de Coração Vagabundo, documentário sobre Caetano Veloso com estreia marcada para julho.

5.26.2009

Rita Lee dá entrevista ao vivo pela primeira vez em 12 anos e fala sobre sexo, drogas e rock'n roll


Márcia Abos

SÃO PAULO - Rita Lee resolveu quebrar um jejum de 12 anos sem dar entrevistas pessoalmente. A deixa foi o lançamento do DVD "Multishowao vivo", pela gravadora Biscoito Fino. Apesar de estar com uma fortegripe, a compositora e cantora recebeu a reportagem do GLOBO no estúdio que tem anexo à sua casa em São Paulo.
Vestida com uma calça multicolorida, camiseta preta e, por cima, para se aquecer no frio paulistano, uma camisa larga de flanela, ela estava bem-disposta e teve paciência para responder a perguntas por mais de uma hora, sempre solícita. Falou de sexo, drogas e rock 'n' roll sem pudores e com seu peculiar senso de humor. Mas não deu sinais de pretender abandonar seu meio de comunicação favorito com a imprensa, o e-mail.

" Sou alcoólatra, então bebeu o primeiro, f... "

Como foi selecionado o repertório do DVD "Multishow ao vivo"?

RITA LEE: A gente estreou a turnê "Pic nic" em janeiro de 2008. De lá para cá, para não ficar aquela coisa retinha, certinha, começamos a tirar e a pôr músicas, também acompanhando pedidos do público. Para o especial, fizemos um esqueleto dos hits que todo mundo quer ouvir e que a gente não sai do palco sem tocar, como "Ovelha negra", "Doce vampiro", "Lança-perfume". As outras, a gente tirava e punha, como "Mutante" e "Cor de rosa choque", que fazia tempo que não cantava.

Uma das inéditas é "Insônia". Você sofre de insônia?

RITA: Sofria. Pastei demais. Na época do "Saia justa" (de 2002 a 2004, Rita foi uma das apresentadoras do programa do GNT) era uma coisa... Tentei de tudo, menos remédios, porque não posso tomar, acabo tomando a farmácia inteira, não sei quando parar. A mesma coisa com bebida, com tudo. Ou fico careta ou caio de boca. Na época da insônia eu já tava careta. Estou careta há três anos e meio, desde que nasceu minha neta. O nascimento dela foi um marco zero, pensei: "Onde estou? Esse filme, eu já vi muito". Mas a tomação tem um preço. Quando você para, é insônia total. Aí comecei a perceber que a insônia era uma namorada. Tinha um lado de rolar na cama, e ela está lá.
" No começo, tinha aquela coisa de ciúme, aquela trepação de coelhinho. Agora é menos quantidade e mais qualidade "

Você está totalmente careta, nem um vinho de vez em quando?

RITA: Não posso nada. Sou alcoólatra, então bebeu o primeiro, f... Meu pai e meu avô eram alcoólatras, minha irmã morreu de alcoolismo, overdose. Quando comecei a fazer a turnê do "Bossa 'n' roll", baixou um Vinicius de Moraes, e eu estava ali com um uisquinho. Álcool é a droga mais pesada que já experimentei. E tem essa hipocrisia de ser liberado, "Se beber, não dirija". Isso tudo é cínico. Ou libera tudo ou proíbe tudo. Quando nasceu minha neta, eu tava em um hospício. Porque rehab para mim é hospício, lugar de gente louca, que tem compulsão a tudo: comida, sexo, jogo, álcool, drogas. Mas não me arrependo de ter feito tudo o que fiz, de ter tomado tudo o que tomei, de ter passado pelas esquinas por onde andei. Não tenho discurso de madalena arrependida. Teve um lado bom de alcançar um arquivo que eu jamais alcançaria careta. Mas é perigoso. Você consegue coisas maravilhosas, música, letra, a ousadia. Mas você abre a guarda e, nessa, vem o outro lado da moeda, que é o escuro. Era uma coisa Luke Skywalker, agora é Darth Vader.

Como é trabalhar em família, com seu filho Beto Lee e o marido, Roberto de Carvalho?

RITA: É o pai, o filho e a espírita santa (risos). É muito bom. Antes de o Beto ser meu filho, ele é um grande guitarrista. Vê-lo ao meu lado é muito louco. Lembro-me do Beto na coxia em um show há anos, no Maracanãzinho, com uma guitarrinha de plástico. Ele atravessava o palco na maior. É normal ele estar do lado. Adoro os solos dele, fico babando, como mãe coruja e colega de trabalho que aprecia. E, do outro lado, o pai dele, nossa, é tão bom. Porque eles me dão uma segurança bacana, de "vamos nessa, mãe".

Em suas composições recentes "Tão", "Se manca" e "Insônia" há algo de reclamação, de resmungo. Você está numa fase reclamona?

RITA: É coisa de idade. Sabe velho rabugento? A gente fica reclamão, implicante pra caramba. Reclamo de sair da minha casa. Aí eu falo, "putz, vou pegar avião". Tenho medo, pavor. Quando eu enchia a cara, tudo bem. Mas agora, careta, tenho pânico, não acredito em avião. Acredito em disco voador, já vi, até. No hotel, olho para o travesseiro e falo: "Está cheio de ácaro de alguém, de outras pessoas, não os meus". O barulho da geladeira no hotel... Vou reclamando até pisar no palco. No palco, acaba tudo. É muito louco. Palco é realmente outro planeta.

Como é viver um casamento de 33 anos?

RITA: Não tem receita. Tem mudanças, fases. Como naqueles joguinhos em que a gente passa de uma fase para outra. No começo, tinha aquela coisa de ciúme, aquela trepação de coelhinho. Agora é menos quantidade e mais qualidade. É uma coisa mais sutil. Ele é muito romântico, manda flores toda semana. A gente combina. Eu escrevo uma letra, e ele vem com uma música. É uma aventura morar, compor, ter tido filhos com ele.

" Toma chocolate e no paga lo que debes. Porque chocolate é de graça agora "
E essa sua carioquice recente?


RITA: Meu amor pelo Rio vem desde criança. As primeiras lembranças que tenho, ainda vivas, são um filme em branco e preto. A calçada de Copacabana, a Guanabara, a Nara (Leão), que rima com Guanabara, a bossa nova, concurso de miss no Maracanãzinho, bailes de carnaval no Municipal, com aquelas estrelas de Hollywood, e, de repente, chegava Luz Del Fuego, abria o casaco, estava pelada e roubava a cena de todo mundo. Isso só acontecia no Rio quando era capital. Depois que a capital passou a ser Brasília, o Rio de Janeiro foi absolutamente abandonado. Isso é terrível. O Rio é o cartão-postal do Brasil, a capital do país de verdade. Tinha que voltar a ser capital federal, seria engraçado, leve, a cara do Brasil.

A relação com gravadoras é complicada?

RITA: Com a Biscoito Fino, não. Em gravadora sempre tem aquele produtor que tem um cunhado compositor, ele quer enfiar uma música dele no CD. É o fim da picada, mas eu sempre tirava isso de letra. Agora a Biscoito não é uma major, é uma coisa de amigo. São todos meio chegados, a gente pode dizer o que quer, e não se metem. Sempre fiz o que eu quis e briguei muito em gravadoras porque eram incompetentes. Não entendiam, não investiam nas pessoas certas, que mereciam. Depois, com o tempo, virou aquela clonagem. Ivete Sangalo deu certo, maravilhosa, vieram os clones. O mesmo com dupla sertaneja. Então as gravadoras ficaram clonando em vez de ver os alternativos, a meninada. Aí apareceu a internet, e eles se f...

O que você acha de pirataria, downloads na rede?

RITA: Adoro. Eu faço e pode fazer das minhas coisas tranquilo. É uma vitrine, tá ali. É assim que está, é muderno. Toma chocolate e no paga lo que debes. Porque chocolate é de graça agora. Acho simpático, democrático. Agora você ganha grana em show, porque disco não vende, é só baixar. Em show você ganha, porque não tem uma Rita Lee pirata cantando.

Quais são seus novos projetos?

RITA: Quero fazer um trabalho de inéditas e retomar aquela ideia de bossanoviar. Queria bossanoviar músicas de cinema brasileiro, italiano, americano. Isso é um projeto paralelo. Outro é fazer música instrumental, como é só isso que ouço, tenho vontade. Para o disco de inéditas, já temos o material, o negócio agora é parar entre um show e outro, garimpar as melhores e gravar.

A gravação do DVD, no Vivo Rio, apresentou um problema que tem sido rotina, da repetição de algumas músicas. O que você acha disso?

RITA: Isso é insuportável, brocha pra caramba. Mas não tem outro jeito. As pessoas que estão assistindo são avisadas de que é gravação, mas para nós, que estamos no palco, é uma brochada legal.

Há mais de dez anos você não fala pessoalmente com jornalistas. Por quê?

RITA: Faz 12 anos que não falo com repórteres. Falo por e-mail, acho tão mais confortável. É mais prático, é moderno, você não sai daí do seu lugar, eu não saio do meu, não tenho que passar batom, você não tem que enfrentar trânsito. Mas muita gente se queixa: "Ah, eu queria olhar cara a cara". Mas para que olhar cara a cara? Para ver minhas rugas? E eu olhar para você para quê? Para sentir o bafo? Não é legal, desconcentra. Escrevo muito melhor que que falo, e, se na primeira rodada de perguntas não deu, fazemos outras, até esgotar. Sua palavra não é distorcida. E eu odeio telefone.