5.10.2009

Dionne e Gal


Antonio Carlos Miguel

por alguns instantes pensei que a quarta dose de Dionne Warwick seria em excesso. As primeiras sete canções foram no esquema rapidinho, com apenas uma passada pelas belas melodias de Bacharach, enquanto o formato daquele grupo, piano da diretora musical, Kathleen Rubbicco, mais baixo, bateria, percussão e dois teclados fazendo o papel cordas, flautas, também me parecia gasto - por que não contratar uns instrumentistas em cada país?, pensava.

até ela anunciar que daria um outro andamento a um dos clássicos de Bacharach & David, imprimindo mais balanço a "I say a little prayer" - foi uma prece profana, de um suingue lesado com clima de salsa e samba.

em seguida, "Fragile", de Sting, que ganhou status de standard, até a simpática sequência brazuca (quando o percussionista nascido em Brasília, Renato Pereira, há 15 anos na banda, ganha a adesão de dois ritmistas cariocas) que anunciou o que todos esperavam da noite: o encontro.

Dionne e Gal no "Piano na Mangueira" de Jobim e Chico, na "Bahia" ("Baixa do Sapateiro") de Ary e numa "Girl from the Ipanema" com sutil viés lésbico - será que sútil mesmo?

poderia ter acabado ali mas, antes do óbvio e burocrato número final, "That's what friends are for" (com Gal apenas se equilibrando na pronúncia na parte que coube a Elton John no disco original), volta o show de Dionne e o ápice da noite: "What the world needs now is love"...

Caetano e banda Cê: zii e zie dá onda!


Antonio Carlos Miguel

"Que onda, que onda, que onda que dá / Que bunda, que bunda!"
sim, o refrão, que se hospedou na minha cabeça durante a madrugada e esta manhã, é de "A cor amarela", mas serve também para descrever o efeito do show de "Zii e zie", que estreou nesta sexta no Canecão.
samba de roda que já era um dos destaques da temporada de "Obra em progresso", na qual foi gerado o disco, "A cor amarela" prossegue arrebatador. Assim como "Perdeu", cujo idem riff de guitarra pontua outros momentos - está tanto no fim de "Eu sou neguinha" (que vem emendada a "A cor amarela") quanto no de "Incompatibilidade de gênios", o samba de João Bosco e Aldir Blanc tão bem transfigurado na versão de Caetano.
mais músicas de "Zii e zie" rendem muito bem - "Lapa", "Falso Leblon", "Base de Guantánamo" (que leva ao transe) e mesmo "Lobão tem razão", esta, apesar da equivocada afirmação de seu título e letra. Mas, o que faz o show "Zii e zie" ser tão interessante é o elo com outras canções caetânicas, da guitarrada avant la lettre que é "Irene" (uma "zie" de "A cor amarela", e que, ao nascer, fim dos anos 1960, foi um estrondoso sucesso nos ares radiofônicos, numa época em que músicas como essa tocavam sem pressão, jabá) a "Objeto não identificado" e "A voz do morto" (com sua exaltação a Paulinho da Viola).
e em tudo, como vem desde "Cê", a guitarra de Pedro Sá é o grande trunfo: com timbres surpreendentes, solos sempre longe do óbvio, daquele gasto formato guitar-hero. Caetano, que anda numa fase de exaltação de heróis (da bela homenagem a Augusto Boal, após cantar sua "Maria Bethânia" dos tempos do exílio, a referência a Hermano Vianna, o "herói vivo" que bolou o agora encerrado blog "Obra em progresso") acertou em cheio ao apostar num antiguitar hero.
beirava uma da madrugada quando saímos do Canecão, talvez desse de pegar o show de Ed Motta na Fundição Progresso, que também deu muita onda, no ano passado, no Canecão, mas temos muito compromissos nesse sábado, incluindo um dos pedidos de zie Elsa: jogar suas cinzas no mar de Ipanema, Vai ser em horário perto da Marcha da Maconha, ou seja, de alguma forma, K e eu também estaremos solidários com o movimento pela liberação da erva, que dá onda.
depois tento contar mais um pouco, e em breve boto alguns dos trechos filmados por K


'Ovo', de Deborah Colker, deixa o Brasil impresso no Cirque du Soleil


Marília Martins

MONTREAL, Canadá - As imagens impressionam: uma floresta de insetos, flores gigantes, teias elásticas, cores fortes e uma sequência de ritmos muito brasileiros, do samba ao forró, do funk carioca ao baião e ao carimbó, que faz a plateia dançar. Mais ainda: ginastas transformados em bailarinos, que logo viram acrobatas do mais famoso circo do mundo. A estreia de "Ovo", o primeiro espetáculo do Cirque du Soleil dirigido por uma mulher, foi delirantemente aplaudida, na sede da companhia, no Canadá. E a coreógrafa carioca Deborah Colker ria de orelha a orelha: tinha vencido o desafio de deixar sua marca pessoal numa companhia com mais de 25 anos de estrada, internacionalmente conhecida por ter revolucionado a linguagem dos espetáculos circenses. A marca de Deborah, que é também a do cenógrafo Gringo Cardia e a do diretor musical Berna Ceppas, se faz com essa reinvenção da acrobacia em forma de dança, da dança em forma de mímica, da mímica em forma de circo, e do circo em forma de ginástica quase olímpica.
Confira fotogaleria com imagens do espetáculo 'Ovo'
São 53 artistas, de mais de dez nacionalidades, numa produção de R$ 88 milhões que levou dois anos para sair do papel e chegar ao picadeiro. A rotina de mais de 12 horas de trabalho diário levou Deborah, Gringo e Ceppas a se mudarem para Montreal há dois anos e a contratarem uma equipe de tradutores para driblar os problemas de comunicação com um elenco que parecia saído de uma torre de Babel.
" É um espetáculo muito grande, e eu acordo no meio da noite com esse circo rodando nos meus sonhos "
- Minha cabeça não parou um minuto. É um espetáculo muito grande, e eu acordo no meio da noite com esse circo rodando nos meus sonhos, com esses movimentos ganhando espaço até nas paredes do meu quarto... - diz Deborah.
A estreia foi nervosa: a rede de segurança dos acrobatas demorou para ser esticada; um número inteiro de dança e acrobacia foi incluído na última semana, a pedido do diretor artístico do Cirque du Soleil, Gilles Ste-Croix. Um teste para nervos de aço. Ste-Croix costuma ser chamado de "leão" por defender o padrão de qualidade da companhia e demitir diretores até às vésperas de estreias. Mas tudo deu certo, mesmo que o cronômetro de Deborah tenha registrado um atraso aqui e outro ali. Lá estavam os trapezistas rodopiando no ar, o equilibrista de cabeça para baixo numa bicicleta suspensa num fio e os saltos entremeados da ginga de coreografias brasileiríssimas. Tudo dançado com precisão pela turma de estrangeiros que aprendeu com Deborah a rebolar no "sambandinho" e a cantar em português, o que a cantora canadense Marie Claude Marchand faz com perfeição, chegando a confundir os poucos brasileiros presentes com sua imitação do sotaque carioca da bossa nova, à frente de uma banda com quatro músicos brasileiros.
Por que o 25º espetáculo do Cirque du Soleil tem como tema o mundo dos insetos? Porque o circo queria falar de meio ambiente, e Deborah resolveu unir natureza, espaço e movimento a partir de uma visão do submundo de criaturas que podem voar, rastejar, saltar ou escalar paredes, tecer teias e ter bem mais do que quatro patas. A coreógrafa mergulhou nesse universo de mosquitos, aranhas, gafanhotos e baratas, que costuma ser desprezado e temido por seres humanos, como quem embarca numa fantasia de ritmos de vida, movimentos e sons.

Série na Caixa Cultural debate a música brasileira vista pela lente de seus biógrafos

RIO - Escritores, mediador, perguntas da plateia... À primeira vista, a série "Toca-livros" - que será realizada esta semana, de terça a sexta-feira, às 19h30m, no Teatro de Arena da Caixa Cultural - é um típico ciclo de debates, no caso sobre livros dedicados a personagens da música brasileira. Mas Edison Viana, idealizador e produtor do projeto, prefere defini-lo como um misto de entrevista coletiva e programa de rádio.
- As perguntas podem ser feitas a todo momento. E teremos músicas para ilustrar a conversa - explica Viana.
No primeiro encontro, os convidados são Arthur Dapieve e Carlos Marcelo, autores de obras sobre Renato Russo; na quarta-feira, Marília Barboza fala de seu trabalho sobre Cartola; Ruy Castro aborda seu livro sobre Carmen Miranda, no terceiro debate; Paulo Cesar de Araújo e sua biografia proibida de Roberto Carlos encerram a sequência.
Os encontros serão gravados. O projeto de Viana é transformar o "Toca-livros" em programa de rádio, série de TV e, mais tarde, num documentário sobre a forma como a música brasileira aparece nos livros:
- Fala-se muito sobre discografia da música brasileira e sua filmografia. Mas sua bibliografia é esquecida. Não se parou para pensar nesse conjunto de livros, seus enfoques, os temas abordados.

Toca-livros: Caixa Cultural RJ - Teatro de Arena. Av. Almirante Barroso, 25 - Centro. Tel.: 2544-4080. De 12 a 15 de maio. Entrada franca (distribuição de senhas no local, a partir das 18h30min)

5.09.2009

Caetano Veloso canta a relação com o Rio em show repleto de homenagens


João Pimentel

RIO - O encontro com a nova geração de músicos que formam a bandaCe, o guitarrista Pedro Sá, o baterista Marcelo Callado e o baixista e tecladista Ricardo Dias Gomes fez bem a Caetano Veloso. A estreia do show de lançamento de "Zii e zie", na noite desta sexta-feira, no Canecão, disco em que faz uma leitura pessoal do Rio de Janeiro, o cantor apresentou um repertório de novas canções e de releituras de antigas composições, suas e de outros autores, adaptadas à sonoridade crua do trio.
Caetano Veloso fala do show 'Zii e Zie'
Rio Show: confira o roteiro carioca de Caetano na cidade
Além de cantar sua relação com a cidade, afagou o desafeto Lobão, pediu vivas a Paulinho da Viola, homenageou as irmãs e dedicou "Maria Bethânia" ao diretor teatral Augusto Boal, morto no dia 2 de maio.
Se alguns de seus transambas soam, à primeira vista, estranhos no disco, essa estranheza se esvai com sua interpretação ao vivo.
Caetano abriu a noite com "A voz do morto", letra que deságua na lembrança de Paulinho da Viola: "Eu canto com o mundo que roda/ Eu e o Paulinho da Viola/ Viva o Paulinho da Viola!", para aplausos da platéia. O cenário composto por uma asa delta e imagens do Rio no telão deram o tom para "Sem cais", do novo disco. Na sequência, "Trem das cores" puxou o primeiro coro da plateia. Depois do momento delicado, foi a vez de: "Mandou, julgou, condenou, salvou, executou, soltou, prendeu", de "Perdeu", a canção mais crua e cruel do disco.
Depois de acarinhar o desafeto em "Lobão tem razão", Caetano fez uma bela interpretação de "Maria Bethânia", lembrou que a canção foi feita no exílio e a dedicou a Boal.
- Ele foi o primeiro a dirigir a Bethânia quando ela veio para o Rio - lembrou. - Tivemos em alguns momentos posições antagônicas, mas, mesmo que tenham compreendido de outra forma, no "Verdade tropical" (livro de Caetano) ele aparece como um grande herói.
Depois das novas "Tarado ni você" e "Menina da Ria", "Não identificado" trouxe de volta o coro e o sorriso de Caetano, que continuou em "Odeio", única música do disco anterior, "Cê", a constar no repertório: A Cuba de "A base de Guantánamo" leva o show até a "Lapa" de Caetano e "A cor amarela", duas das melhores canções do disco novo.
Depois de uma "Eu sou neguinha?" quase tribal, já é hora do bis, que tem seu auge em "Força estranha", e a última homenagem da noite, a Roberto Carlos. Roberto, Paulinho, Lobão, Bethânia e, principalmente, o público carioca, agradecem tanto carinho.

Os caminhos cruzados de Elis Regina e Nara Leão

O clima entre as estrelas era hostil por causa de Elis, a quem Nara admirava

Nara Leão nasceu no dia 19 de janeiro de 1942. Elis Regina morreu no dia 19 de janeiro de 1982. Elis, que implicou muito com a musa da bossa nova depois que ela aderiu ao iê-iê-iê da Jovem Guarda, teceu elogios à rival numa entrevista ao jornal Última Hora em... 19 de janeiro de 1976. Coincidências à parte, as vidas de Elis e Nara tropeçaram em pedras semelhantes. Uma delas tinha nome e sobrenome: Ronaldo Bôscoli.

O jornalista, letrista e produtor Bôscoli havia namorado Nara na adolescência. Foi noivo da cantora entre o final dos anos 50 e o início dos 60, na época em que o apartamento da família Lofêgo Leão, na avenida Atlântica, servia de ponto de encontro dos entusiastas da bossa nova. Quase todos bem nascidos e bem criados na Zona Sul carioca, como Roberto Menescal, Carlinhos Lyra, Luís Carlos Vinhas, Sylvia Telles, Chico Feitosa e Luizinho Eça, e o baiano João Gilberto.

O relacionamento de Nara e Bôscoli foi por água abaixo em 1961, quando Maysa anunciou à imprensa, sem o conhecimento do jornalista, que se casaria com ele. É certo que os dois dormiram juntos na turnê que haviam acabado de fazer por Argentina, Uruguai e Chile, mas a história do casamento foi invenção de Maysa. E Nara rompeu com Bôscoli de uma maneira enérgica: não atendia nem os telefonemas do compositor, em quem seu pai, o severo Jairo Leão, depositava um bocado de confiança.

Pois bem. Elis Regina e Ronaldo Bôscoli casaram-se no civil no dia 5 de dezembro de 1967. Em comparação à idade de Bôscoli, Elis era ainda mais nova do que Nara: 16 anos contra 13 de diferença. O casamento durou cinco anos, entre separações, reconciliações e o nascimento do primogênito João Marcelo Bôscoli, hoje dono da gravadora Trama. Bôscoli, o Ronaldo, só teria novamente acesso à Nara Leão anos mais tarde.

O jornalista e compositor Nelson Motta foi testemunha da rixa entre Elis e Nara. "A Elis tinha uma grande voz. Nara Leão era o contrário: tinha poucos recursos vocais, mas usava muito bem a inteligência. Era hostilizada pela Elis por causa da pequena voz, mas reunia os melhores repertórios e trabalhou muito pela música brasileira. Já a Nara vivia dizendo que Elis era uma grande cantora", revela.

Até a imprensa sabia que Elis detestava Nara. As duas foram convidadas para estrelar a série ‘As grandes rivalidades’, publicada na revista Manchete. O crítico de música e jornalista Sérgio Cabral lembra esse episódio em ‘Nara Leão, uma biografia’, lançada pela Lumiar. "O clima era de hostilidade, principalmente por parte de Elis Regina", afirma Cabral no livro.

E continua, linhas abaixo: "Bem humorada, Nara até brincou com a rival na hora das fotografias. ‘Como é? Estão dizendo por aí que não queremos posar juntas. Podemos ou não?’ Elis nada respondeu e, à medida que as fotos eram batidas, foi perdendo a paciência, até que estourou: ‘Vou embora porque não gosto de Nara Leão’. Em seguida, Carlos Marques entrevistou as duas isoladamente".

Sérgio Cabral destaca a agressividade de Elis para com Nara. "Elis Regina foi contundente: ‘Eu não tinha nada contra a moça Nara Leão. Hoje eu tenho porque me irrita a sua falta de posição, dentro e fora da música popular brasileira. Ela foi a musa, durante muito tempo, mas começou gradativamente a trair cada movimento do qual participava. Iniciou na bossa nova, depois passou a cantar samba de morro, posteriormente enveredou pelas músicas de protesto e, agora, aderiu ao iê-iê-iê. Negou todos...’".

Só a título de curiosidade, vale reproduzir o trecho da entrevista ao jornal Última Hora, de Samuel Wainer, na qual Elis aplaudia a paciência da irmã de Danuza e, portanto, cunhada de Wainer, adiantando a postura que adotaria com ela no futuro: "Eu sou esquentada. Tem gente que é calma, a Nara Leão, por exemplo, é uma pessoa que tem uma paciência histórica, sentou, esperou tudo acomodar e fez um disco certo. Aliás, ela sempre faz as coisas certas nas horas corretas e para as pessoas exatas. Eu sou guerreira e pego a metralhadora para sair atrás de quem me enche o saco".

5.08.2009

Colaboração Angela Chaloub

Uma música:"O que tinha de ser"(Tom & Vinicius) e duas interpretações:

1_Maria Bethânia acompanhada do Terra Trio canta a música "O que tinha de ser", de Tom Jobim e Vinicius de Moraes.

2_Elis Regina e César Mariano fazendo uma bela interpretação de O que tinha de ser , música de Tom Jobim e Vinícius de Moraes

O que tinha de ser

Composição: Tom Jobim / Vinícius de Moraes

Porque foste na vida
A última esperança
Encontrar-te me fez criança
Porque já eras meu
Sem eu saber sequer
Porque és o meu homem
E eu tua mulher.

Porque tu me chegaste
Sem me dizer que vinhas
E tuas mãos foram minhas com calma
Porque foste em minh'alma
Como um amanhecer
Porque foste o que tinha de ser.



'Cyrano de Bergerac', de Ferreira Gullar, estreia na Laura Alvim


Alessandra Duarte

RIO - Uma das melhores traduções que o poeta Ferreira Gullar já fez - segundo ele mesmo - está em cartaz no Rio. É a primeira vez que a montagem do clássico de Edmond Rostand com a premiada tradução de Gullar é apresentada em palco carioca. Com direção de Renato Carreira, o espetáculo tem Oddone Monteiro vivendo Cyrano; Márcia Méll, Roxane; e Rodrigo Phavanello, Cristiano; além de mais 12 atores.
A obra com tradução de Gullar (que ganhou um Molière por ela na primeira vez em que o prêmio foi dado na categoria Tradutor) teve só uma montagem até hoje, em 1985, dirigida por Flávio Rangel e protagonizada por Antonio Fagundes. Foi apresentada em São Paulo, mas não chegou ao Rio.
- É evidente que aquele espetáculo deu certo por causa do diretor e dos atores - lembra um modesto Gullar, acrescentando que a tradução foi uma encomenda do amigo Rangel.
Segundo o escritor, sua tradução para a história do poeta e espadachim Cyrano e de seu desproporcional nariz (motivo pelo qual ele escolhe um outro homem, mais bonito, para cortejar em seu lugar a mulher que ama, Roxane) deu certo porque não foi tão fiel ao original de Rostand.
- Havia uma tradução para a língua portuguesa que era consagrada, a de Carlos Porto Carreiro. Era excelente, mas muito fiel ao original. E o Rostand escreveu "Cyrano..." em versos dodecassílabos alexandrinos. Não é uma coisa muito simples de fazer. O Rostand foi o criador, então foi fazendo sem nada antes. Se não dava certo de um jeito, fazia de outro, e aí fica fluente, porque há liberdade. Quando você vai traduzir, já existe algo antes, que é o original. Quem traduz tem menos liberdade - explica Gullar, continuando com uma risada: - Só que eu quis a liberdade de Rostand.
Nas sua "infidelidade" ao original de Rostand, Gullar não usou versos dodecassílabos, mas decassílabos, "verso bem mais fluente na língua portuguesa".
- Além disso, o cara que está na plateia não sabe se a rima está caindo no fim, no meio ou no começo do verso, então eu só rimei onde dava naturalmente para isso, em vez de rimar onde o original rimava. Resumindo o angu: pus a fluência da fala acima de tudo. Tive que ser infiel para ser fiel - completa Gullar. - Quando você vai de uma língua a outra, se tiver fidelidade à forma, vai subestimar o conteúdo. Mantive-me fiel ao conteúdo. Sem dúvida, é uma das minhas melhores traduções.
Ferreira Gullar chegou a substituir poemas inteiros do texto de Rostand, como na cena em que Cyrano, escondido, declama um poema a Roxane, mas é o outro homem, Cristiano, quem aparece para ela.
- Inventei um poema ali. O do Rostand era de um romantismo defasado, antigo. Não teria apelo - conclui Gullar, que com Oduvaldo Vianna Filho escreveu o texto final em versos de "Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come", e diz que criar peças em verso é claramente mais difícil do que em prosa ("Você pode ser bom dramaturgo, inventar diálogos espontâneos, mas, se não souber manejar o verso, não sai"). - Procurei dizer os versos do "Cyrano" como um brasileiro diria.
O poeta ainda não viu ensaios da montagem atual, mas fez à produção uma única recomendação: que eles mantivessem as falas em verso.
- Esse foi meu maior desafio - conta o diretor de "Cyrano...", Renato Carreira.
Além da sua primeira direção de uma peça em verso, este é o primeiro espetáculo de um texto clássico feito por Carreira, mais acostumado a autores contemporâneos como o francês Novarina. Não bastasse tudo isso, ele ainda teve de preparar a peça em apenas 40 dias.
O resultado foi uma montagem mais contemporânea que tradicional. Renato Carreira enxugou a tradução de Ferreira Gullar, reduzindo-a de cerca de três horas e meia para uma hora e meia; investiu na linguagem corporal do elenco (a direção de movimento é de Anna Abbot) e em versos mais falados que declamados (a direção vocal é de Glorinha Beutenmüller); acrescentou projeções (o videodesign é de Paulo Severo); e pôs os atores junto com o público:
- Não é uma montagem clássica, tradicional. O primeiro ato, por exemplo, é no meio da plateia e na boca de cena, com as cortinas fechadas. Nossa intenção foi agilizar a obra.

Casa de Cultura Laura Alvim - Avenida Vieira Souto, 176 - Ipanema. Tel: 2332-2015. Estreia quin, 21h. Sex e sab, 21h; dom, 20h.

Temporada: de 1º de maio a 14 de junho. R$ 30

Confira o roteiro carioca de Caetano Veloso, que estreia "Zii e zie" no Canecão

Caetano Veloso estreia nesta sexta-feira, no Canecão, o show de lançamento do CD "Zii e zie". De suas 13 faixas, nada menos que nove fazem referência, direta ou indiretamente, ao Rio - nem sempre lisonjeiras, diga-se, mas sempre fruto de refinada observação. Algumas, como "Lapa" e "Falso Leblon", citam bairros da cidade já no título. Aproveitando o clima carioca, o músico faz um roteiro com os lugares que curte na cidade.

(Confira o roteiro carioca de Caetano)

- Na época do tropicalismo, eu nem gostava do Rio. É uma cidade central num país que não é central. Isso faz com que o povo aqui aja como se soubesse de tudo e já tivesse visto tudo. O carioca é mais chique que isso.
Segundo Caetano, a Lapa é "a síntese do Brasil":
- Acompanhei o Circo Voador desde o início, no Arpoador, até a mudança para a Lapa. Mas nunca tinha feito um show lá, só algumas apresentações esporádicas e participações. Adorei fazer a temporada do "Cê" ali. Não tenho nostalgia do Circo de antes, gosto dele do jeito que está - diz. - Da Fundição Progresso, me lembro de quando o Perfeito (Fortuna) começou a falar sobre o projeto. Achei loucura, mas ela está aí, linda, um espaço sensacional. Talvez falte tratamento acústico no local dos shows, mas a Fundição é uma realidade. Também vou a shows na Estrela da Lapa e acho o Rio Scenarium um espetáculo. Todo bonito. Não há nada na Lapa de que eu não goste. O "elenco" é todo muito elegante.
Aqui cabe uma história curiosa. Por conta de uma certa admiração por lugares bacanas, o poeta paranaense Paulo Leminsky costumava dizer a Caetano que ele era "muito classe média":
- Eu respondia: sou mesmo, sempre fui. E é verdade.
Esse côté classe média se manifesta no prazer em frequentar o supermercado Zona Sul da Praça General Osório, em Ipanema. Sempre às duas da matina, claro:
- Quando eu me separei e fui morar sozinho, num apart-hotel, ia muito lá. Não durmo cedo, costumo ir para a cama às cinco da manhã. Gosto de encontrar pessoas no supermercado quase deserto e parar para conversar.

Um golpe na economia da colaboração


Julio Daio Borges

Um dos assuntos preferidos da internet, nos últimos tempos, tem sido a crise dos jornais, seus muitos prejuízos, sua obsolescência programada e, fatalmente, seu desaparecimento. Foi, portanto, inesperado o recente golpe de Farhad Manjoo, colunista da Slate, sobre um dos pilares do jornalismo na internet, o “conteúdo colaborativo”. Manjoo começa revelando que, embora estejamos cansados de ouvir sobre o mau desempenho das empresas jornalísticas tradicionais, um dos maiores prejuízos do nosso tempo é causado, justamente, pelo YouTube, site de compartilhamento de vídeos. Neste ano – calcula um relatório do banco Credit Suisse –, estão estimadas perdas ao redor de 470 milhões de dólares para o Google (que arrematou o YouTube em 2006). Assim o Boston Globe, por exemplo, cujas perdas ficarão em “apenas” 89 milhões de dólares em 2009, revela-se, subitamente, cinco vezes mais “lucrativo” que o YouTube. Manjoo prossegue no seu raciocínio: assim como os jornais têm de pagar caro para derrubar árvores e fazê-las circular em forma de notícia, o YouTube tem de pagar caríssimo por uma conexão pantagruélica de internet, para estocar e entregar seus vídeos – em suma, ambos correm atrás de anunciantes fugidios que banquem seus custos proibitivos de armazenamento e logística. Em citação a Benjamin Wayne – presidente de um dos concorrentes do YouTube –, Manjoo igualmente afirma que nem o Google, com suas receitas mirabolantes, tem como sustentar uma empresa que perde quase meio-bilhão de dólares/ano. Farhad Manjoo, para piorar, considera que o YouTube é só a ponta do iceberg da economia do “conteúdo gerado pelo usuário” (locomotiva da famosa Web 2.0). Por mais que as práticas colaborativas tenham revolucionado ambientes como o da política nos Estados Unidos e áreas do conhecimento como o enciclopedismo, sites como a Wikipedia e Twitter não geram ainda ganhos proporcionais ao barulho que fazem. A justificativa de Manjoo para essa contradição é simples: anunciantes não se sentem à vontade em veicular seus produtos e marcas ao lado de textos, fotos e vídeos “artesanais” ou “caseiros”; sendo que os maiores sucessos de audiência, pelo menos em matéria de vídeos (os conhecidos “virais”), são, além de os mais caros de manter (porque os mais acessados), os mais constrangedores nos quais se anunciar – a ponto de o YouTube só conseguir vender publicidade para menos de 10% de seu acervo. E o Facebook segue na mesma linha: de acordo com o indefectível TechCrunch, a maior rede social do mundo gastava, no último levantamento, nada mais nada menos que 1 milhão de dólares mensais só de eletricidade, 500 mil dólares mensais em conexão de internet e mais de 2 milhões de dólares por semana em novos servidores (para dar conta das quase 1 bilhão de fotos postadas por seus usuários todo mês). Farhad Manjoo conclui – para enterrar as últimas esperanças do jornalismo colaborativo – que os internautas, atualmente, pagam é pelo velho conteúdo gerado por profissionais. Entre os quais: música vendida através do iTunes e assinaturas on-line do Wall Street Journal. Sem contar o Hulu (outro concorrente do YouTube), que veicula filmes e séries de TV, e que parece estar ensinando ao todo-poderoso Google como atrair anunciantes numa proporção muito mais interessante. Farhad, por fim, admite que o “conteúdo gerado pelo usuário” transformou definitivamente o mundo – mas é pena que ninguém ainda tenha descoberto um jeito de ganhar dinheiro com ele...
Do You Think Bandwidth Grows on Trees?