5.12.2009

Biscoito Fino entra no terreno popular com Elba

O recente lançamento pela Biscoito Fino do CD comemorativo dos 30 anos de carreira de Elba Ramalho, Balaio de Amor, impõe curioso desafio à mais importante gravadora indie do mercado fonográfico brasileiro: fazer o disco de Elba (em foto de Renato Filho) chegar ao seu principal público-alvo. Parece fácil, mas pode vir a ser difícil se não houver alteração na rota de distribuição. Até então, a Biscoito Fino sempre lançou CDs e DVDs dirigidos às chamadas elites. Até mesmo os recentes álbuns de Maria Bethânia e Chico Buarque - as duas maiores estrelas da companhia - foram trabalhos que não miravam o chamado povão. Não é o caso de Balaio de Amor, álbum em que Elba faz pulsar novamente sua veia popular com a gravação de canções e xotes românticos de pegada mais simples (nem por isso menos interessante). No seu nicho de mercado, centrado nas classes A e B, a Biscoito Fino sempre encontrou um público disposto a pagar mais por um produto de qualidade mais apurada. Inclusive na parte gráfica. Gente habituada a comprar discos pela internet. Mas o CD de Elba precisa chegar em outras classes e meios para encontrar o seu público. Se a gravadora vencer esse desafio, todos têm a ganhar...


EVENTO LEMBRA 100 ANOS DE COMPOSITOR DE “AMÉLIA”

“Leva Meu Samba” é o título do show em homenagem ao compositor Ataulfo Alves, que completaria 100 anos este mês . O evento, com a participação do grupo de choro Nós Nas Cordas e convidados, tem entrada franca e acontece na próxima quarta-feira, dia 13, às 19 horas, no Plenário Jorge Miguel Jayme.

Mineiro de Mirai, Ataulfo Alves mudou-se para o Rio de Janeiro aos 17 anos, iniciando sua história no samba. No currículo do compositor, estão sucessos como “Ai que saudades de Amélia” (em parceria com Mário Lago), “Laranja Madura”, “Leva Meu Samba”, “Meus Tempos de Criança”, “Na Cadência do Samba” e “Pois é”. O sambista foi um dos primeiros artistas a criar sua própria editora, a ATA DISCOS, e chegou a ser eleito um dos dez homens mais elegantes do Brasil em um famoso concurso feito pelo colunista Ibrain Sued, na década de 50.
O Plenário Jorge Miguel Jayme fica na Rua Padre Couto, 10, no Centro Histórico

CASAMENTO?

E no mês das noivas, o Cine Clube Câmara Cultural apresenta filmes que têm o casamento como tema central. Sempre às segundas-feiras, o projeto irá exibir os filmes “Casamento Grego” (dia 11), de Joel Zwick; “Vestida Para Casar” (dia 18), de Anne Fletcher; e “O Casamento de Muriel” (dia 25), de P.J. Hogan. As apresentações têm entrada franca e acontecem no Plenário Jorge Miguel Jayme (Rua Padre Couto, 10, Centro), sempre às 19 horas.

Sucesso de crítica e de público, “Casamento Grego” tem como protagonista uma descendente de gregos na faixa dos 30 anos, cujo pai sonha em ver casada com um conterrâneo. Ela, por sua vez, quer algo além do casamento e convence o pai a pagar-lhe aulas de informática. Ao longo do curso, a moça conhece e se apaixona por um inglês, que se vê obrigado a mergulhar nas tradições gregas para se casar com ela.

Já “Vestida Para Casar”, conta a estória de Jane, uma mulher idealista e romântica que tem uma paixão secreta pelo chefe. No entanto, é sua irmã mais nova quem conquista o coração dele. Diante disso, Jane decide repensar sua vida, uma vez que sempre conseguiu fazer a felicidade das pessoas a sua volta, mas nunca a sua própria.

“O Casamento de Muriel”, por sua vez, tem Toni Colette no papel de uma jovem cujo maior sonho é se casar. Desprezada pelo pai e pelas amigas, ela se refugia nas músicas do Abba e em catálogos de vestidos de noiva, enquanto espera pelo seu grande dia. A nada convencional comédia australiana também se destaca pela trilha sonora, que, além de Abba, traz The Carpenters, Blondie e The Turtles.

VEM AÍ...
O Festival de Teatro das Agulhas Negras - FESTAN - vai rolar entre os dias 23 e 30 de maio. Serão apresentados 10 espetáculos gratuitos em Resende, Itatiaia, Quatis e Porto Real.

Cretinice ou bandidagem?


É difícil encontrar um qualificativo quando se trata de definir ações premeditadas do jornal O Globo, e de boa parte de seu quadro de dirigentes de redação, no sentido de distorcer os fatos da vida real. Sempre, é claro, protegendo seus cúmplices nas altas esferas do grande capital, e procurando difamar os que, na vida pública, se alinham com os interesses dos que vivem do trabalho e do salário.

Não. Não estamos retomando a vergonhosa e parcial cobertura dos episódios relativos a Gilmar Mendes, e o inexplicável habeas corpus a Daniel Dantas, versus a corajosa intervenção do ministro Joaquim Barbosa; ou a operação Satiagraha, conduzida pelo delegado Protógenes. Nesses episódios já ficou bastante claro de que lado se colocou o jornalão. E ficou claro, também, seu fracasso na tentativa de manipulação da opinião pública.

Estamos nos referindo à desonestidade do destaque dado na edição de sábado, 9 de maio, à noticia sobre a utilização de passagens por parte da Senadora Heloisa Helena.

Este jornalão sem vergonha, com uma história marcada pela cumplicidade com o que houve de mais grave em ataques à democracia em nosso país, resolveu fazer manchete de página com a informação de Heloisa ter utilizado sua cota de bilhetes para deslocamento, entre Maceió e Brasília, de seu filho Ian.

Reparem bem o roteiro de viagem. Não se trata de Paris, nem Havaí. Trata-se de deslocamentos do filho da senadora, entre Maceió e Brasília, sua base de trabalho como presidente do PSOL.

Mas o jornalão não opera pela lógica do fato objetivo ou da isenção em relação aos fatos. O que não é de surpreender, tendo em vista o descaramento com que atacou entidades simbólicas - OAB e ABI - na luta contra a ditadura que apoiou durante todo o tempo, marcando o Jornal Nacional como porta-voz do regime autoritário. O que não é de surpreender, tendo em vista o descaramento na omissão de qualquer notícia positiva sobre a senadora e o PSOL.

O jornalão não cita em destaque, nem estampa fotos, quando as pesquisas mantêm a senadora em excelente posição nas pesquisas presidenciais, sempre à frente de Aécio Neves ou Dilma Roussef. Pelo contrário, cita e publica as fotos dos que vêm depois dela.

Algum leitor do jornalão tomou conhecimento dos atos de mobilização promovidos pelo partido da Senadora, o PSOL, como o ato contra o ministro Gilmar Mendes, em frente ao STF, com mais de 500 presentes? Não. Mas recebeu a resposta, como sempre agressiva e oligárquica, que o ministro deu no dia seguinte, quando afirmou que juiz não deve ouvir o "qualquer um da esquina".

Os leitores do jornalão não souberam também que, na cidade onde o jornalão é editado, um comício na Cinelândia com mais de 1500 participantes se realizou, por iniciativa do PSOL e da Fundação Lauro Campos, em protesto contra as manobras do capital, com apoio do governo Lula, para transferir aos trabalhadores o ônus da crise. Um comício onde se prestou solidariedade ao delegado Protógenes pelo combate a que se entregou contra o verdadeiro crime organizado em nosso País. Mais importante para o jornalão era, naquele mesmo dia, noticiar que o senador Dornelles havia sido reeleito para a presidência de seu inexpressivo partido.

Lamentavelmente, na mesma noite, o noticiário televisivo da Bandeirante mostrava sua submissão ao concorrente, operando a notícia com a mesma desonestidade que o jornal o fizera na manhã. Enquanto o próprio Jornal Nacional se omitia sobre o fato, o jornal da Band dava destaque somente a Heloisa Helena no novo "furo de reportagem." E mentindo, quando informou ter ela se recusado a dar entrevista. A Senadora não havia sido contatada.

A Fundação Lauro Campos e o PSOL não reconhecem ao jornal o Globo e à TV Bandeirantes, porta-voz do agronegócio predador, nenhum papel de fiscal da moralidade pública. Pelo contrário. Lamenta que ambos, com a cumplicidade de alguns dirigentes das redações, repetimos, tratem a informação como mercadoria a ser comprada ou vendida. E por isso se empenham na luta constante pela transformação qualitativa de nossa sociedade, na qual o conceito de democracia se afirme não pela cretinice da "liberdade de opinião" dos donos de empresas de comunicação, mas, sim, da liberdade de opinião da cidadania como um todo, contra o poder manipulador desses proprietários de meios de comunicação.

Declaração de Heloísa Helena

Heloísa Helena"Tenho a minha CONSCIÊNCIA ABSOLUTAMENTE TRANQUILA pois TUDO que foi feito durante o meu HONRADO Mandato de Senadora está TOTALMENTE de acordo com a Legalidade Institucional vigente. NUNCA fiz nenhuma Ilegalidade ou Imoralidade na minha vida Pública ou Privada. Repito NUNCA!! NÃO faço parte de nenhum dos Bandos Políticos de Alagoas e Brasília que fazem orgias, políticas e sexuais, com dinheiro público roubado. NUNCA patrocinei passagens aéreas para Marginais que viajam para articular o Propinódromo da Roubalheira do Eixo Alagoas/Brasília.

5.11.2009

Roberta Sá e Pedro Luis abrem série em homenagem ao centenário de nascimento de Carmen Miranda

RIO - O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) apresenta a partir desta terça-feira (12.04) a série de espetáculos "Alô...Alô?: 100 anos de Carmen Miranda", em homenagem ao centenário de nascimento da artista. Serão quatro edições, com direção artística e musical de Luís Filipe de Lima. Na estreia, Roberta Sá e Pedro Luis interpretam sucessos da carrreira da Pequena Notável, com apresentação de Ruy Castro. Nas outras semanas, haverá shows de Eduardo Dussek, Marcos Sacramento, Verônica Ferriani, Pedro Miranda, Rita Ribeiro e Beatriz Faria.
As edições serão sempre às terças-feiras. A série percorre, em quatro repertórios, canções muito conhecidas e outras menos famosas. O objetivo é mostrar ao público as diversas facetas do repertório de Carmen, desde seus primeiros anos de carreira até a projeção internacional conquistada em Hollywood e na Broadway, passando por seus maiores sucessos no Brasil, os repertórios carnavalesco e junino. Também há destaque para os compositores mais próximos da cantora em toda a sua trajetória - Ary Barroso e Assis Valente. A banda é formada por Eduardo Neves (sax e flauta), Luís Filipe de Lima (violão de sete cordas), Henrique Cazes (cavaquinho) e Paulino Dias (percussão).

Confira a programação:

12.05: Roberta Sá e Pedro Luís: "A pequena notável" (apresentador: Ruy Castro)
19.05: Beatriz Faria e Marcos Sacramento: "Brazilian bombshell" (apresentador: Sérgio Cabral)
26.05: Verônica Ferriani e Pedro Miranda: "É disso que eu gosto" (apresentador: Sérgio Cabral)
02.06: Rita Ribeiro e Eduardo Dussek: "O que é que a baiana tem?" (apresentador: Ruy Castro)

'Alô...Alô: 100 anos de Carmen Miranda' - Dias 12.05, 19.05, 26.05 e 02.06 - às 12h30m e 18h30m. CCBB Rio - Rua 1º de Março, 66 - Tel: 3808-2007 - Centro. Teatro 2. R$ 6
Colaboração Angela Chaloub

Maria Bethânia e Paulinho da Viola são entrevistados para o Documentário Francês de 1969 "Saravah", de Pierre Barouh.

Eles cantam "Rosa Maria" de Eden Silva e Anibal Silva, "Tudo é Ilusão" (canção de Eden Silva e Tufy Lauar ) e "Pecadora" (Jair do Cavaquinho e Joãozinho).

Bethânia nesse trecho faz referências ao disco "Tempo de amor" de Dalva de Oliveira, lançado naquele ano com a faixa "Tudo é Ilusão" além de "Tem Mais Samba" de Chico Buarque de Hollanda.

Saravah

Documentário de 1969 com Maria Bethânia, Paulinho da Viola, Pixinguinha, João da Baiana e Baden Powell, entre outros.

Foi no mês de fevereiro de 1969 que o diretor de cinema francês Pierre Barouh desembarcou no Rio de Janeiro disposto a registrar em película momentos de uma música que, embora conhecesse pouco, o fascinava intensamente. O olhar do estrangeiro, de coração aberto para a música brasileira, capturou imagens que durante 36 anos permaneceram desconhecidas no país.

Foi lançado agora, em DVD, o filme Saravah, resultado das sessões de filmagem de Barouh com os ancestrais Pixinguinha e João da Baiana, então octagenários, os jovens Maria Bethânia (aos 21 anos) e Paulinho da Viola, tendo Baden Powell como elo de ligação entre gerações tão distantes e fundamentais da arte brasileira.

A nova missão artística francesa empreendida por Barouh se inicia no desfile da Mangueira no carnaval daquele ano. Do glamour da avenida, a ação se desloca para um bar do subúrbio carioca, na rua Pixinguinha, registrando o encontro entre o genial maestro e Baden Powell, intermediado pelo cineasta. Pixinguinha lembra a viagem dos Oito Batutas a Paris, na década de 20, e chega a cantarolar a música tema do grupo com o qual se apresentou durante oito meses na capital francesa.

Interessado nas intervenções culturais e religiosas da presença da África no Brasil, Barouh entrevista João da Baiana que, acompanhado por Baden ao violão, sapateia e toca prato e faca, enquanto entoa Okekerê, de sua autoria, e Yaô, de Pixinguinha. Um momento em que a história atemporal do Brasil é materializada em imagens pelas lentes de Barouh.

História esta que se manifestava espontaneamente diante do diretor europeu. A seqüência que mostra Maria Bethânia quase menina ao lado do também muito jovem Paulinho da Viola é para figurar em qualquer antologia da música brasileira. A ação se passa numa mesa de bar, ao ar livre, com a presença de vários amigos e uma atmosfera que combinava descontração e reverência.

Bethânia e Paulinho interpretam sambas de Jair do Cavaquinho (Pecadora), Nelson Cavaquinho e Guilherme de Brito (Pranto de Poeta), além de criações do próprio Paulinho, como Coração Vulgar e Coisas do Mundo minha Nega. Paulinho teoriza sobre o universo das escolas-de-samba e suas influências, diante da cumplicidade e contemplação de Bethânia e de um diretor em êxtase.

A seqüência seguinte mostra uma jam session de Bethânia, ao lado de músicos como o trombonista Raul de Souza e o pianista Luis Carlos Vinhas, interpretando canções de Caetano Veloso – Baby e Tropicália – então exilado em Londres. Da Bahia cosmopolita para um Pernambuco nostálgico, Bethânia recria o Frevo número 1 do Recife, de Antonio Maria, e Pra Dizer Adeus, de Edu Lobo e Torquato Neto, em imagens raríssimas onde a própria cantora se acompanha ao violão, executando a harmonia intrincada de Lobo.

É a hora do encontro entre Baden e Pixinguinha, lá no começo do filme, desdobrar-se inevitavelmente em música, através de uma acachapante versão de Lamentos, de Pixinguinha, com o maestro estabelecendo contrapontos em seu saxofone para o violão de Baden. Quando o espectador já não tem mais fôlego para tanto impacto visual e sonoro, entra a seqüência do Baden Powell Quarteto, com a participação da cantora Márcia, interpretando a mesma Lamentos, agora com a letra de Vinicius de Moraes, parceiro de Baden nas canções que se seguem: Formosa e Tempo de Amor. Para finalizar, o próprio Barouh entoa Samba Saravah, versão em francês do Samba da Bênção, de Baden e Vinicius, também com Baden ao violão.

Nos extras, uma visita de Barouh ao morro do Cantagalo, no Rio, em 2003, acompanhado do cineasta Walter Salles Junior, na casa do compositor Adão Xalebarada, e a gravação da cantora Bia, acompanhada por Sivuca, de La Nuit de mon Amour, versão de A Noite do meu Bem, clássico de Dolores Duran, vertida para o francês por Pierre Barouh.


O que era privilégio de franceses e japoneses (que tiveram anteriormente acesso a edições em DVD), passa a patrimônio brasileiro, com o lançamento de Saravah. Se o som direto às vezes pode deixar a desejar para o espectador mais exigente, o valor documental impõe a obra como um dos mais impactantes lançamentos da música brasileira na era do DVD.

Gênero: Documentário
Diretor: Pierre Barouh
Duração: 62 minutos
Ano de Lançamento: 1969
País de Origem: Brasil
Idioma do Áudio: Português/Francês
Qualidade de Vídeo: DVD Rip
Formato de Tela: Tela Cheia (4x3)
Tamanho: 700 Mb
Legendas: No torrent

III Festival de Música Popular da Record / 1967

Julio Medaglia, Chico Anysio, Ferreira Gullar. Em 1967, eles decidiram o maior dos Festivais

Fred Melo Paiva -

SÃO PAULO - A platéia que lotava o teatro tinha se tornado personagem à parte, armada até os dentes de assobios e faixas. Queria impor no berro a sua escolha. Os artistas, isolados em seus camarins, sentiam-se prontos para enfrentar os leões. Na noite da grande final, vaias e aplausos se misturavam. Uns mais vaiados do que aplaudidos, outros mais aplaudidos do que vaiados. Mas, quando chegou a minha vez, a vaia foi unânime.

Não tinha jeito de cantar. Por causa do barulho, era impossível ouvir o acompanhamento. Me senti acuado e resolvi reagir. Disse uns desaforos, que depois a censura cortou do vídeo. Em seguida, quebrei o meu violão e o atirei sobre o público. Naquela hora, pouco me importava se estivesse jogando para o alto tudo o que eu tinha construído na minha carreira.

A Elis Regina me abraçou, emocionada e solidária com o meu gesto. Minha música foi desclassificada pela direção da TV Record. Saí do teatro sob escolta. Uma parte da platéia queria me linchar.

O violão do Sérgio Ricardo, esse nosso Kurt Cobain, veio a esbofetear um sujeito sentado nas primeiras filas. A performance pode ser verificada no YouTube, desde o momento em que o Sérgio começa a entoar os primeiros versos de Beto Bom de Bola até o instante em que pisa na mesma, arremessando o instrumento.

Em frente ao palco, no fosso destinado às orquestras do Teatro Paramount, em São Paulo, ficavam os 15 jurados deste que é considerado o grande Festival de Música Popular Brasileira em todos os tempos. Há controvérsia a respeito de qual carcaça craniana teria sido mais perigosamente sobrevoada pela ferramenta de trabalho de Sérgio Ricardo.

"Passou bem em cima de mim", diz o maestro Julio Medaglia. Numa posição intermediária, "alguma coisa passou zunindo" sobre a corcova do jornalista Salomão Schwartzman. Também o poeta Ferreira Gullar deve ter ouvido aquele violão, no alarido rolando por cima do seu telhado.

O júri do III Festival de Música Popular Brasileira ocupava posição das mais complicadas - e não apenas porque ficava na linha de frente, sujeito a levar uma cabongada. O problema é que em 1967 a rivalidade de estilos musicais chegou a seu ápice, fazendo surgir as torcidas organizadas. Em anos anteriores, o público que acompanhava os festivais ao vivo, de dentro do teatro, limitava-se a aplaudir canções de que gostava.

Agora havia uma clara indisposição com os "inimigos", muitas vezes vaiados impiedosamente até o último acorde. O enfrentamento extrapolava o espaço do Paramount, antigo cine-teatro construído no final dos anos 20, hoje Teatro Abril. Palco que recebera Nat King Cole em 1959, acabou arrendado pela TV Record em 67, justamente para as transmissões do Festival. Nas ruas, até passeatas eram empreendidas para manifestar apoio a este ou aquele compositor.

O clima político ajudava a botar lenha na fogueira. Uma parte do público ainda se emocionava com a Jovem Guarda, cuja temática tinha a profundidade da Daniella Cicarelli no Video Music Brasil - sem querer ofender a Jovem Guarda. Uma outra parte só aceitava as letras que dessem na ditadura a sua violada.

Para embaralhar ainda mais o jogo, emergia desse caldeirão uma turma de espantosa qualidade. Entre os compositores que interpretaram suas próprias músicas, o Festival de 1967 reuniu Caetano Veloso, Chico Buarque, Gilberto Gil, Geraldo Vandré, Edu Lobo. Entre os cantores, Roberto Carlos, Elis Regina, Gal Costa.


Até a Hebe Camargo, mas deixa isso pra lá. Com o público fungando na retaguarda, não era raro voar sobre o júri ovos e tomates. Numa das eliminatórias, o jornalista e jurado Sérgio Cabral, pai do atual governador do Rio de Janeiro, viu o produto da feira passar "raspando no meu nariz e estourar perto do Gullar e do Chico Anysio", outro dos que compunham o júri. Para sair do teatro,

Cabral desenvolveu a técnica do absurdo. Consistia em segurar a mulher pelo braço e atravessar o auditório repetindo o seguinte bordão: "Mas isso é um absurdo! É um absurdo! Um absurdo!". Dessa forma, não importando a qualidade dos inconformados, o Sérgio Cabral estava sempre do lado deles.

Escolher o júri para o Festival de 1967 foi um parto. Nenhuma tendência deveria ser privilegiada. "Tratava-se de resolver uma equação com três variáveis: o conhecimento para a avaliação, a credibilidade junto à empresa e ao meio musical, e a posição política", conta o crítico de música Zuza Homem de Mello em A Era dos Festivais (Editora 34, esgotado).

A solução foi parir uma metade de gente de esquerda e outra de direita, misturá-las a figuras da indústria do disco, executivos da Record, maestros, jornalistas. A primeira atividade do grupo foi chafurdar centenas de fitas K-7. Para fugir do assédio, Julio Medaglia, então com 29 anos, levava o balaio e os gatos para a casa do pai dele, no bairro da Lapa, em São Paulo. "Passamos um mês ouvindo música e tomando caipirinha."
Embora parte do corpo de jurados, Julio Medaglia podia fazer arranjo para quem ele quisesse - arranjo musical, veja bem. Chegou a colaborar com Gilberto Gil em Domingo no Parque, a música que chegaria em segundo lugar. Mas, "como Rogério Duprat tinha sido expulso da Universidade de Brasília e estava completamente duro, eu dei para ele esse espaço". Por sugestão do Julio Medaglia, Duprat juntaria Gil e Os Mutantes, lançando as bases do Tropicalismo.

"A gente sempre foi contra o rock", ele diz, "mas sabíamos distinguir um Jimi Hendrix, uma Janis Joplin". Por isso foi convidado por Caetano Veloso para trabalhar no arranjo de Alegria, Alegria, cuja música seria executada pelos argentinos dos Beat Boys. Seguro de que "o contraste já viria da mistura da banda de rock com a marcha-rancho", acabou se autodispensando da função.

Caetano tirou quarto lugar, colocando-se ao lado de Gil como a grande surpresa musical daquele ano - e contribuindo decisivamente para mudar a cara da MPB a partir de 1968, justificando, em 67, o título de "Festival da Virada". Julio Medaglia voltaria a trabalhar com ele em 68, assinando o arranjo de Tropicália. Há poucos meses, o Julio, que está com 69 anos, emprestou para uma exposição a partitura original da música. "Fizeram um seguro milionário", diz. "Tomara que suma."

Sérgio Cabral, o pai, fazia parte da "tradicional família musical". Por isso ficou "chocado" quando soube que Gil e Caetano subiriam ao palco acompanhados de bandas de rock. "Mas a estética matou a minha ideologia em 2 minutos". Ainda que desprovido de ideologia, deu seu voto para Ponteio mesmo, a música de Edu Lobo que levou o primeiro lugar.

O Chico Anysio não. O Chico Anysio cravou Alegria, Alegria, porque considera Caetano "o melhor letrista do Brasil, mais até do que o Chico Buarque". Se o Chico Anysio disser isso para o Ferreira Gullar, corre o risco de tomar uma violada. Em 1967, Gullar não teve dúvida: deu seu voto para Roda Vida, de Chico Buarque, que terminou o Festival em terceiro lugar. O Ferreira Gullar até conhecia o Caetano, que "tinha vindo tomar conta da Bethânia quando ela chegou no Teatro Opinião para fazer o Carcará".

Mas naquele tempo a esquerda ainda votava na esquerda. Salomão Schwartzman, que segundo o próprio sofreu "um expurgo stalinista" ao ser demitido recentemente da Rede Cultura, apostou em Domingo no Parque.

"Durante o Festival, todos nós tínhamos a noção de estar diante de algo maravilhoso", lembra Sérgio Cabral. "O que não sabíamos era que aquilo nunca mais se repetiria com tanta qualidade." Sentindo que o sucesso do Festival poderia conduzir a vaca diretamente para o brejo, Julio Medaglia procurou Paulinho Machado de Carvalho, o dono da Record.

Pediu que "não matasse a galinha dos ovos de ouro". Sugeriu que preservasse os artistas contratados pela emissora, sob pena de transformá-los em celebridades, e de o povo se cansar de suas músicas. "Mas não adiantou nada", ele diz. "É por isso que nos anos 70 vieram a turma das sapatonas e os seus boleros horríveis. Foi só se esboçar a abertura política, e a música brasileira acabou."

Quarenta anos se passaram de um momento glorioso da MPB. Com exceção daqueles que na época se organizaram empresarialmente, os demais se transformaram em dinossauros. As lições que tiro do violão quebrado estão guardadas no meu coração.

Numa disputa esportiva, vence o que faz mais gols, ganha o cavalo que primeiro botar o focinho no olho mecânico. É incontestável. Qual música é inferior ou superior à outra: Aquarela do Brasil, de Ary Barroso, ou Carinhoso, de Pixinguinha? Em qual você vota? Isso não existe.

Sérgio Ricardo vive hoje no Rio de Janeiro. Tem 75 anos e prepara o lançamento de um novo CD. Além de ter composto a trilha sonora de Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, o Sérgio vai deixar como legado uma das mais famosas manchetes da história do jornalismo brasileiro, publicada por um jornal popular: "Violada no auditório".

Sérgio Cabral gostaria de ter votado em outra...

Leonardo Lichote

RIO - O jornalista Sérgio Cabral saiu do Teatro Record Centro, em São Paulo, no dia 21 de outubro de 1967 com uma ponta de incômodo. Jurado do 3º Festival da Música Popular Brasileira, ele tinha acabado de dar seu voto à vitoriosa "Ponteio", de Edu Lobo e Capinan. Mas, pouco depois da divulgação do resultado, já estava arrependido.

- Saí de lá pensando que deveria ter votado em "Domingo no parque" (de Gilberto Gil), que é uma obra-prima - lembra. - Mas não acredito que meu voto teria mudado o resultado. De qualquer forma, "Ponteio" é ótima, e qualquer finalista que ganhasse ali seria justo.
O curioso é que o jurado arrependido era, antes do festival, um opositor de "Domingo no parque". Gil apresentou a canção com os Mutantes, numa ousadia que atraiu a antipatia dos puristas. Alinhado com a esquerda nacionalista, Cabral era contra o uso de guitarras elétricas na música brasileira.

- Quando soube que Gil e Caetano (que mostrou "Alegria, alegria" acompanhado dos roqueiros argentinos do Beat Boys) iriam cantar com grupos de rock, já estava preparado para não votar neles. Eu era da ala que tinha preconceito mesmo contra guitarra, uma turma que tinha até o próprio Gil, que participou da passeata (protesto nacionalista celebrizado como a "passeata contra a guitarra") - conta. - Mas fui convencido pelo fator estético. Enquanto ouvia aquilo, pensava: "Mas isso está bonito".

A platéia de 67, porém, estava quente como nunca, recorda Cabral. Não foi à toa que naquele ano surgiu o termo festivaia. Uma das lembranças mais fortes que o jurado guarda do festival é o furor do auditório. Já no primeiro dia, a torcida organizada para "O combatente", cantada por Jair Rodrigues, respondeu com violência à eliminação da canção. Além das vaias, ela atirou objetos contra o júri. Cabral conta que era a primeira vez que via aquilo.

- Um ovo passou a um milímetro do meu rosto e estourou perto de Gullar e Chico Anysio - lembra. - A platéia se empolgou com "O combatente" porque ela tinha a mímica da canção de protesto.

Mas o marco na história das festivaias viria apenas dias depois, na terceira eliminatória, com a famosa violada de Sérgio Ricardo - em resposta às insistentes vaias, que o impediam de apresentar sua "Beto bom de bola", o cantor quebrou seu violão e o lançou sobre a platéia.








DEZARIE FAZ APRESENTAÇÃO ÚNICA DIA 16 DE MAIO NA FUNDIÇÃO


• A dama do reggae lança CD no Rio e toca acompanhada por integrantes do MIDNITE Uma das mais cultuadas vozes femininas do reggae, DEZARIE faz apresentação única na Fundição Progresso sábado, dia 16 de maio. Ela é a grande atração da 4ª edição do 'Fundição Reggae Music'. Palco de alguns dos principais festivais do gênero no país, a casa já recebeu artistas consagrados como Don Carlos, Ziggy Marley, Israel Vibration, Ziggy Marley, Andrew Tosh, Midnite, Groundation, Steel Pulse, entre outros.

DEZARIE - conhecida como "a dama do reggae das Ilhas Virgens" - apresenta o repertório de seu disco mais recente, "Eaze the pain" (2008). Será o lançamento do CD no Rio de Janeiro. Na Fundição, ela canta acompanhada pelo multiinstrumentista RON BENJAMIN e pelo guitarrista EDMUND, ambos integrantes da banda MIDNITE. A cantora volta à Lapa dois anos depois da apresentação histórica que lotou a Fundição, em 2007. Ela também faz show em Aracajú, Salvador, Brasília, Florianópolis, Porto Alegre e São Paulo.

18 anos. Fundição Progresso (5 000 lugares). Rua dos Arcos, 24, Lapa, 2220-5070. Sábado (16), 0h. R$ 25,00 a R$ 70,00. Bilheteria: 10h/13h30 e 14h/18h (seg. a sex.); a partir das 12h (sáb.). www.fundicao.org.

As histórias e parcerias do Clube da Esquina

Livro reúne fotos e depoimentos dos integrantes do grupo que revolucionou a música brasileira na década de 70. “A gravadora nem queria aceitar o projeto”, conta Lô Borges

Danilo Casaletti

Companheiros “Agradeço pelo pessoal do Clube ter entendido o que eu queria dizer, meu novo jeito de compor"
Eu já estou com o pé nessa estrada/ Qualquer dia a gente se vê/ Sei que nada será como antes/ Amanhã. Os versos da canção Nada será como antes (Milton Nascimento/ Ronaldo Bastos) revela o espírito com que uma turma de garotos entrou em estúdio em 1972 para gravar um disco que mudaria os rumos da música brasileira. A história do grupo é contada no livro Coração Americano - 35 anos do álbum Clube da Esquina (Editora Prax), que acaba de ser lançado.

No livro, textos e imagens organizados por Andréa Estanislau ilustram o que foi o encontro de jovens músicos que se encontravam na esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, no bairro Santa Tereza, em Belo Horizonte, para tocar violão. Depois do lançamento do disco, o som deles - que trazia novidades harmônicas e estéticas para a música brasileira - ganhou o país e o mundo.

Na época do lançamento do primeiro volume do Clube, em 1972, Milton Nascimento já era famoso. Tinha participado de festivais de música e sua composição Travessia já era conhecida do grande público. Até Elis Regina, uma das cantoras mais consagradas da época, havia gravado suas canções. Coube a ele então a missão de convencer a sua gravadora, a EMI-Odeon, a apostar naquela reunião de garotos que tão a fim de fazer um novo som e, mais que isso, lançar um disco duplo. "A gravadora não queria bancar o projeto. Milton bateu o pé e disse que iria procurar outra que se interessasse pelo disco", diz o músico Lô Borges, em entrevista a ÉPOCA. Lô tinha apenas 20 anos quando assinou a capa ao lado do amigo Milton.

Segundo Lô, ele, Milton e toda a turma - Beto Guedes, Toninho Horta, Wagner Tiso, Tavito, Nelson Ângelo, Ronaldo Bastos, Fernando Brant, Marcio Borges, entre outros - não tinham consciência do impacto que o álbum causaria. “Queríamos fazer música, tocar nossas canções. Tudo foi acontecendo naturalmente, durante as gravações mesmo”, conta. Para ele, o disco consegue ter unidade mesmo com as diferentes sonoridades propostas por ele e por Milton. “Agradeço por eles terem entendido o que eu queria dizer, meu novo jeito de compor e tocar que tinha uma clara inspiração nos Beatles. Eu fui um dos primeiros a compor baladas aqui no Brasil”, afirma Lô.

As músicas do Clube chamaram a atenção de uma geração de artistas. Elis, por exemplo, gravou Cais e Nada será como antes, em 1972, e, em 1980, uma nova versão para o Trem Azul. Tom Jobim registrou a mesma canção, na década de 90. "Ter sido gravado por Elis e Tom, para mim, valeu mais do que ter vendido um milhão de cópias de qualquer disco”, diz Lô.
Apesar de conviver com o "fantasma" do Clube até hoje - não há apresentação em que não peçam para cantar as músicas do grupo ou que fãs não cobrem um novo encontro dos amigos -, Lô é categórico ao afirmar que os dois discos e a reunião com seus amigos só lhe trouxeram alegrias na carreira. "O disco ter sido citado em 1001 Álbuns que você deve ouvir antes de morrer, do crítico Robert Dimery, é sinal de que fizemos um trabalho de qualidade”.

O segundo volume do Clube da Esquina foi lançado em 1978. Desta vez, além dos antigos parceiros do Clube, Milton, mais uma vez mentor do projeto, trouxe novos amigos, como as cantoras Elis Regina e Joyce e os compositores Chico Buarque, Ana Terra e Danilo Caymmi. No ano passado, a gravadora EMI lançou os dois discos em uma edição comemorativa.

Um terceiro disco? Lô não acredita nessa possibilidade. “Isso teria que partir do Milton, mas acho que ele não está voltado para isso. A chance de isso acontecer é muito remota”. Enquanto isso, o músico reforça sua parceria com outro mineiro, Samuel Rosa, vocalista do Skank. Os dois devem lançar juntos, neste ano, um CD e um DVD para comemorar os 10 anos de parceria. “A simbiose entre Samuel Rosa e Lô Borges cria algo novo, que não é nem Skank e nem Clube da Esquina”, diz Lô. Além desse projeto, Lô também pretende lançar um disco gravado no ano passado junto com a Orquestra Sinfônica de Belo Horizonte.