11.05.2009

"O Brasil sente Saudades"

Citei Lévi-Strauss nominalmente em “O estrangeiro”. Era a famosa frase depreciativa da Baía de Guanabara. Em “Tristes trópicos”, ele diz que ela “parece uma boca desdentada”. Citei-o também, indiretamente, em “Um índio” (“num claro instante”), “Tem que ser você” (“o amor-mentira” é a tradução que ele fez do modo como os nambiquaras se referem ao homossexualismo masculino praticado pelos jovens da tribo), “Fora da ordem” (“aqui tudo parece que ainda é construção mas já é ruína”) e no filme “O cinema falado”: a frase em que Luiz Zerbini diz “Picasso não é um bom pintor; por causa dele se negligenciou toda uma tradição de adestramento nos ateliês” é tirada de uma entrevista que ele deu sobre arte moderna. As outras citações vêm todas de “Tristes trópicos”, um livro extraordinário, que ficou sempre todo vivo na minha lembrança: eu o li em 1967 e até hoje não preciso nem olhá-lo para lembrar cada trecho, cada ideia.
Li também outros livros dele depois. Sempre com grande admiração. O caleidoscópio de mitos em “O cru e o cozido” é uma maravilha, mas a introdução sobre a música me marcou mais. Ele não gostava de cultura pop e não gostaria de ser citado por um cantor brasileiro, mas eu me senti sempre atraído pelo seu pensamento e seu estilo. Modestamente, me refiro a ele com familiaridade. Eu gostava também de ele ser longevo. E do jeito de ele falar, como um judeu sábio e irônico. Mas me agastava com as reações dele contra a arte de vanguarda. Embora não ache seus argumentos nesse campo propriamente desprezíveis.
Meu analista, MD Magno, diz que todo o papo de linha entre natureza e cultura traçada pela proibição do incesto é furado. Me convence. Mas Lévi-Strauss foi uma das mentes mais lúcidas e um dos estilos mais elegantes com que tomei contato em minha vida adulta. Em “Saudades do Brasil” ele fala com carinho das possibilidades de grandeza de civilizações amazônicas pré-cabralinas. Agora eu sinto que o Brasil sente saudades dele (que foi um crítico duríssimo da nossa vida “civilizada”).
CAETANO VELOSO é músico e escritor

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