9.22.2009

A resistência, de Ernesto Sabato

Rafael Rodrigues

Vivemos tempos instáveis. Há por todos os lados alguma ameaça, alguma preocupação que nos deixa em estado de alerta o tempo inteiro. A qualquer momento um conflito entre nações pode acontecer, ou uma epidemia se alastrar pelo mundo. A economia já deu sinais de que pode entrar em um colapso profundo; na política, o que vemos é um mar de corrupção e negligência. Tais sintomas terminam por contaminar a sociedade como um todo e, diante disso, os poucos que têm algum tempo para pensar e se dar conta do que está acontecendo ― e do que pode vir a acontecer ― se perguntam: o que podemos fazer? Ou, melhor dizendo: podemos fazer alguma coisa?

Através de seis cartas dirigidas a toda a humanidade, o escritor argentino Ernesto Sabato tenta responder a essas questões no singelo A resistência (Companhia das Letras, 2008, 112 págs.).

Sabato inicia o livro dizendo "Há certos dias em que acordo com uma esperança demencial, momentos em que sinto que as possibilidades de uma vida humana estão ao alcance de nossas mãos. Hoje é um desses dias". Mas essa esperança não dura mais que algumas linhas ― ela é logo minada pelo esboço de análise que ele faz da influência que tem a televisão na nossa sociedade.

Para Sabato, a televisão nos faz perder "a capacidade de olhar e ver o cotidiano". O autor costuma dizer, "alterando a famosa frase de Marx", que "a televisão é o ópio do povo". "Ela nos tira a vontade de trabalhar em algum artesanato, de ler um livro, de fazer um conserto na casa enquanto se escuta música ou se toma um mate." Publicado na Argentina em 2000, essa crítica à televisão talvez tenha ficado um tanto ultrapassada, porque hoje é a internet que exerce esse "poder" sobre uma quantidade cada vez maior de pessoas.

Mas Sabato não é um pessimista, e algumas páginas depois a esperança reaparece: "Sim, tenho uma esperança demencial, ligada, paradoxalmente, à nossa atual pobreza existencial e ao desejo, que descubro em muitos olhares, de que algo grande nos consagre a cuidar com empenho da terra em que vivemos".

Na segunda carta, o autor escreve sobre valores que foram "esquecidos" pelos homens: "Esses grandes valores, como a honestidade, a honra, o apreço pelas coisas bem-feitas, o respeito pelo outro, nada disso era excepcional, mas coisas que se encontravam na maioria das pessoas". Tais características caíram tão em desuso que, hoje, ser honesto, por exemplo, é algo quase absurdo, e muitas vezes quem é honesto é tido como bobo, ingênuo.

O tema da carta seguinte é o Bem e o Mal, mas o que mais chama a atenção nela é o depoimento muito pessoal, uma espécie de mea culpa, do escritor argentino, quando ele recorda uma visita que fez à sua mãe, "a última vez que eu veria minha mãe com saúde, de pé". Essa lembrança é a deixa para que Sabato faça uma severa autocrítica e, também, um alerta: "Enquanto escrevo a vocês, volta a imagem de minha mãe que deixei tão sozinha em seus últimos anos...". É uma confissão emocionante e corajosa de um filho arrependido por ter se afastado da mãe, e que nos serve de lição.

Mas como agir, como se preocupar com valores e emoções, se grande parte das pessoas não tem sequer tempo para si próprias? Como tentar "salvar o mundo" se não podemos salvar nem a nós mesmos? Sabato responde:

"Essa é uma grande tarefa para quem trabalha no rádio, na televisão ou escreve nos jornais; uma verdadeira proeza, possível de realizar quando é autêntica a dor que sentimos pelo sofrimento alheio."

Ou seja: se o mundo começar a melhorar para alguns, vai também melhorar para outros. As mudanças não acontecem de uma hora para outra, elas são lentas. Mas surtem efeito sobre milhares e milhares de pessoas. Se essas mudanças ― leia-se melhoras ― começarem a acontecer em mais lugares e em doses cada vez maiores, certamente o efeito cascata ― expressão muito utilizada em tempos de crise ― fará com que a vida de milhões de pessoas seja modificada para melhor. Exemplo de algo que pode trazer uma mudança radical no mundo, se controlada, é a corrupção, assunto abordado na quarta carta de Sabato:

"Milhares de homens perdem a vida trabalhando ― quando podem ―, acumulando amarguras e desilusões, mal conseguindo sustentar-se por mais um dia na mais precária situação, ao passo que quase todo indivíduo que chega a um cargo de poder em poucos meses troca seu modesto apartamentinho por uma luxuosa mansão com fabulosos automóveis na garagem. Como é que essa gente não tem vergonha?"

A quinta carta, que dá título ao livro, é aberta com a seguinte frase: "O pior é a velocidade vertiginosa". E ela é a tônica do texto, um dos mais emocionados e libertadores do livro. Esta carta é uma espécie de manifesto, um elogio à resistência. É como se Sabato dissesse "Acordem! Nós podemos vencer, a Humanidade pode vencer!". E ele de certa forma nos diz isso: "Neste caminho sem saída que hoje enfrentamos, a recriação do homem e seu mundo surge não como uma escolha entre outras, mas como um gesto tão impreterível quanto o nascimento de uma criança quando é chegada a hora".

Ernesto Sabato tinha 89 anos quando A resistência foi publicado. Então não chega a ser um espanto o fato que de a última carta do livro, um epílogo intitulado "A decisão e a morte", seja uma espécie de testamento que ele deixa a seus leitores. Fica a impressão de que Sabato se entrega à morte, de que ele está se resignando a ela, mas ele apenas a aceita, o que é totalmente diferente: "Resignar-se é uma covardia, é o sentimento que justifica o abandono daquilo pelo qual vale a pena lutar; de certo modo, é uma indignidade. A aceitação é o respeito pela vontade do outro, seja ele um ser humano ou o próprio destino. Não nasce do medo, como a resignação; é como um fruto".

Além de uma obra literária importantíssima, Ernesto Sabato nos deixa várias lições, sendo que resistir, mesmo sabendo que a hora de partir está cada vez mais perto, é talvez a maior de todas.

Nenhum comentário: