9.23.2009

Além do Papel (Beyond Ipanema)

Enviado por Antônio Carlos Miguel -

Na edição deste quarta-feira, o Segundo Caderno publica a breve reportagem sobre o documentário "Beyond Ipanema: Ondas brasileiras na música global”, que dois brasileiros radicados em Nova York, o produtor Béco Dranoff e o jornalista Guto Barra, idealizaram e dirigiram, e que está na Première Brasil do Festival do Rio. Serão quatro exibições, a partir deste sábado, dia 30, à meia-noite, no Cine Odeon.
Como o título anuncia, eles dão uma panorâmica na música brasileira que tem rodado o mundo, quase sempre a partir de sua entrada nos EUA. Desde de Carmen Miranda, como algumas lacunas (justificadas por ambos), eles passam por bossa nova, tropicália e chegam a fenômenos localizados e recentes como funk favela, Forró in the Dark, Garotas Suecas, uma escola de samba formada numa escola no Harlem e outras curiosidades...
O papo por e-mail com Béco (que lançou a carreira internacional de Bebel Gilberto, época em que o conheci) e Guto rendeu e, portanto, boto a entrevista aqui na íntegra, com direito a um clipe no filme no YouTreco.

1) Como surgiu a ideia desse filme e quanto tempo vocês levaram entre o roteiro e a finalização?

Béco Dranoff: O conceito de Beyond Ipanema foi criado por Guto, que me convidou para desenvolver o projeto com ele em meados de 2006. Levamos mais de três anos de pesquisa e trabalho para chegar a essa forma final do documentário, um processo que incluiu a produção de cerca de 50 entrevistas e mais de cem horas de imagens.

Guto Barra: Notamos que não faltavam compilações dedicadas aos diferentes gêneros brasileiros no mercado e bastante literatura, mas não havia um filme que retratasse um pouco dessa história. Como o assunto era bem familiar para a gente e havia um certo acesso a muitos dos artistas envolvidos, resolvemos entrar nesta empreitada por completo amor à música. Depois de passar mais de três anos envolvidos com o projeto, ainda continuamos a nos surpreender com o quanto a música brasileira afeta o público internacional - e sempre de maneiras diferentes.

2) Entre a bossa nova e a recente (a partir dos anos 1990) redescoberta da tropicália (Tom Zé, Caetano, Gil, Mutantes...), o pessoal do jazz trocou figurinhas com Milton Nascimento (tem um importante disco dele com Wayne Shorter, “Native dancer”, e muitos outros), Ivan Lins foi gravado por meio mundo no jazz-pop (George Benson, Manhattan Transfer etc...) e percussionistas brasileiros fizeram escola. Por que essa gente ficou de fora do documentário? Também senti falta de menção a Sepultura, grupo que conseguiu uma forte entrada no segmento do metal...

BD: Por motivos de duração do filme, tivemos que optar e enfocar em alguns artistas e movimentos importantes. Entrevistamos Milton e Wayne Shorter, mas não pudemos falar de gente como Naná Vasconcelos, Paulinho Da Costa, Dom Um Romao e Djavan, que também tiveram papel importante na história. Idem com o Sepultura, teríamos que acrescentar mais um capítulo no filme só para contar a trajetória da banda. O nosso documentário não almeja ser a história definitiva da música do Brasil no mundo, mas sim um panorama geral sobre a sua influência e relevância fora do país. Quem sabe um dia fazemos o Beyond Ipanema 2 e contamos mais?

GB: No caso do Milton e do Wayne, como entrevistamos os dois, com certeza vamos acabar usando este material em um DVD ou outros formatos de distribuição do documentário. Também gostaria muito de ter entrado na história da Flora e do Airto, mas tivemos que fazer uma decisão criativa e focar em alguns assuntos. A história da música brasileira também passa por Laurindo Almeida, Luiz Bonfá, Bola Sete, Walter Wanderley e tantos outros. O Beyond Ipanema poderia ser transformado facilmente em uma série de vários episódios. Ou talvez em um livro.

3) Percebi também que vocês focaram mais a cena de Nova York, onde ambos moram, certo?

BD: Sim, principalmente por questões práticas e orçamentárias. Mas também porque foi onde nasceu a Bossa Nova para os americanos com o grande show do Carnegie Hall em 1962. Nova York é ainda um porto importantíssimo de passagem para todas as culturas do mundo.

GB: O documentário também reflete um pouco das nossas experiências pessoais vividas aqui em NY. O Béco esteve envolvido com vários dos projetos, eventos e artistas que são protagonistas da parte mais recente da história. Eu trabalhei como jornalista cultural aqui durante vários anos e acompanhei de perto principalmente a história de Tom Zé, Mutantes e David Byrne. Então fazia mais sentido seguir essa direção. Da mesma maneira como tivemos que nos concentrar em alguns temas e artistas, também achamos que abrir muito e tentar contar a história da música brasileira no mundo todo seria uma missão muito ambiciosa. Se fôssemos entrar no fascínio dos japoneses pela Bossa Nova ou o prestígio dos artistas brasileiros em alguns países da Europa, precisaríamos de mais algumas horas de filme...

4) É genial a descoberta das aulas de samba naquela escola do Harlem. Segundo a experiência de vocês, qual a chance de o samba crescer nos EUA? (Em Nova Orleans, conheci duas escolas de samba, formadas na maioria por estudantes americanos)

BD: Todas as artes brasileiras estão em grande evidência nos EUA e Europa, é uma hora ótima para a cultura nacional. A internet abriu definitivamente as portas do Brasil e os intercâmbios estão mais fortes do que nunca. Nas grandes cidades dos EUA hoje existem aulas de vários gêneros brasileiros: maracatu, frevo, capoeira, percussão. Como diz o David Byrne no filme, o Brasil é um dos poucos países no mundo a exportar tanta cultura. As crianças da escola no Harlem adoram as aulas de samba e isso indica que o ritmo poderia espalhar muito pelos EUA e pelo mundo afora.

GB: Para mim, uma das coisas mais incríveis é o samba acontecer em uma escola do Harlem especificamente, já que o bairro tem uma história musical tão rica. "Roubar" o espaço do hip hop entre teenagers americanos também é um grande feito! O professor da FDA, Dana Monteiro, acredita que também tem um lado prático que favorece a disseminação num ambiente escolar: é relativamente fácil de aprender (em seis meses eles já estão tocando), é animado e divertido. O samba também pode se beneficiar do fato de que pode se misturar facilmente ao hip hop, breakdance e ritmos latinos.

5) Apesar de algum reconhecimento nos meios universitário, musical, da intelligentzia em geral, nomes como Tom Zé, Caetano, Gil não penetram no mainstream. Já Bebel Gilberto, pelo menos nos dois primeiros CDs, conseguiu uma grande projeção – em Los Angeles e NY, eu me lembro de ouvir o disco dela em muitas lojas e muitos restaurantes. Segundo a análise de vocês, o que Bebel tem que eles não têm?

BD: Eu tenho um grande envolvimento com o lançamento da Bebel nos EUA e no mundo. Ao meu ver ela teve vários fatores que a favoreceram. Primeiro, seu talento natural, sua voz e musicalidade únicas. Segundo, os discos sempre incluíram canções em inglês ou que continham frases em inglês; sinto que isso a ajudou a chegar no mainstream americano. Também importante é o fato dela morar em Nova York e ter podido divulgar o seu trabalho como uma artista local, ter feito muitos shows, aparições em TV, emplacado músicas em filmes e séries de TV, enfim, muito trabalho na mídia local mesmo. Os discos foram incorporados no cotidiano americano e hoje ouve-se Bebel em muitas lojas, cafés, livrarias, e as pessoas reconhecem a sua voz.

GB: Acho que hoje em dia existem várias maneiras diferentes de se analisar a relevância dos artistas brasileiros nos Estados Unidos. Como sabemos bem, isso não está mais relacionado ao número de vendas de discos. Na minha opinião, esta relevância está no fato de que eles são citados como influência de artistas americanos, ganham menções na mídia tanto mainstream quanto alternativa, mantêm cenas (às vezes maiores, às vezes menores) em torno de seus trabalhos e conseguem fazer turnês com certa frequência. Isso acontece com Gil, Caetano, Tom Zé, Seu Jorge, Céu, Mutantes e vários outros. A internet também mudou bastante este cenário. A popularidade do CSS no YouTube é muito maior do que a de Sergio Mendes, que foi o artista brasileiro que mais vendeu discos nos EUA. É interessante ver como os artistas brasileiros estão sabendo aproveitar a evolução da mídia e dos meios de distribuição. A Céu, por exemplo, virou um grande sucesso de vendas por corta do Starbucks, o que é o sonho de muitos artistas americanos.
Durante a produção do filme, pudemos sentir de perto o quanto todo esse movimento vem abrindo as portas para a música brasileira no "subconsciente médio" internacional. A sensação que ficou para mim é que não saber alguma coisa sobre a música brasileira hoje em dia nos EUA é uma coisa quase inaceitável. Muitas vezes nos surpreendemos ao conversar com algum "leigo" vindo do mid-west americano e a pessoa, logo após admitir não saber nada sobre o Brasil, conta que "adora" Seu Jorge, que viu a participação dele em "A Vida Marinha com Steve Zissou" e comprou o disco... Quando mostramos o filme na Nova Zelândia, há poucas semanas, vimos que o CSS é uma febre por lá. Ou seja, são fenômenos isolados, sim, mas são tantos fenômenos paralelos, que o resultado é impressionante e praticamente único.

6) Como vocês mostram no filme, e a dupla do Thievery Corporation conta, batidas brasileiras já foram incorporadas ao idioma de DJs e produtores contemporâneos. Até que ponto o público consumidor identifica a origem desse balanço? O que Gilberto Gil fala, de que o mundo está se tornando de alguma forma brasileiro, também converge para essa questão: até que ponto a identidade brasileira se mantém nessa globalização cultural?

BD: O que mostramos no Beyond Ipanema é justamente isso, a penetração às vezes direta e às vezes subliminal da nossa música e cultura. O Brasil sempre foi "globalizado", isso parece estar na nossa essência, as fusões culturais e raciais brasileiras são incríveis. Isso agora se reflete na nossa exportação cultural de volta ao mundo. Não é só em música, mas em moda, design, fotografia, street art, dança contemporânea, etc... O mundo admira muito o poder criativo do brasileiro, das nossas propostas e soluções para tudo. A Tropicália já pregava que tudo ia se misturar e isso aconteceu.

GB: Com certeza muitas vezes as pessoas não sabem de onde aquele beat vem - e nem querem saber. Percebemos que cada público conecta com a música brasileira por motivos diferentes. O público jovem de música eletrônica hoje se liga no ritmo do funk carioca, mesmo sem entender as letras, eles gostam da sonoridade crua; o povo do psychedelic folk se identifica com a filosofia tropicalista; os jazzistas se conectam com a sofisticação harmônica e assim por diante. Em vários desses casos, existe essa identificação com artistas específicos, mas sem necessariamente passar por uma conexão mais profunda com o Brasil. Talvez a identidade de todos os países vá ficar mais diluída com toda essa globalização, mas acho que isso tem seu lado positivo, no sentido de que as pessoas podem ficar mais abertas para conhecer coisas diferentes.

7) Vi na página da banda que Garotas Suecas está com uma razoável agenda americana em outubro. Qual o circuito que eles fazem por aí?

GB: O GS fez uma entrada bem interessante aqui, bem despretensiosa, usando a internet e o poder da música ao vivo. Eles fizeram bastante barulho no último South by Southwest e ganharam atenção online. O interessante é o fato de que eles cantam em português e isso não parece estar sendo uma barreira para a banda. Acho que eles têm tudo para entrar no mesmo circuito de rock alternativo que é fanático pelos Mutantes.

8) Como o subtítulo do filme já diz, a música brasileira vai e volta: qual a próxima ou a atual onda brasileira nos EUA? A verdade é que depois da bossa nova, ainda não rolou nada com a mesma força em bloco, o que temos são casos isolados. E, no que não deixa de ser saudável, com diferentes vertentes: forró, funk-favela, bossa-eletrônica, neo tropicália etc...

BD: Creio que devido à fragmentação e democratização das fontes de informações, estamos vivendo um momento muito fértil de abundância artística. Eu acho bom que não exista só um movimento exclusivo de nada. Hoje, quem ouve funk carioca, pode ouvir bossa, heavy metal e boleros... por que não? Sinto que os gêneros e categorias estão caindo em desuso. Acho que existem dois tipos de música em geral: a que a gente gosta e a que a gente não gosta - e isso é totalmente individual.

GB: Acho que nada, nunca mais, vai ter o mesmo sucesso de vendas e penetração na cultura pop americana que a Bossa Nova teve. São outros tempos, as mudanças na indústria fonográfica e a fragmentação da mídia não permitiriam. Realmente o grande valor hoje está na diversidade e no fato de que todas as mini-cenas existem paralelamente sem muito investimento em marketing por parte de selos e gravadoras. O fato de que sempre tem espaço para novos artistas brasileiros, com a nossa música continua voltando em cada década, também é um grande feito.

9) Por fim, quais os planos para lançamento e distribuição do filme?

Béco & Guto: Beyond Ipanema ainda não tem um distribuidor no Brasil. A representação internacional está sendo feita pela FiGa Films, baseada em Los Angeles, e procuramos os parceiros certos para associações no Brasil e outros países. No momento estamos estudando qual será a melhor estratégia de distribuição, pensando inclusive em um mix de cinema/tv/online.

Alias, essa edição do Festival do Rio tem muito filme ligado à música, até entre os de ficção, como o da noite de abertura, "Taking Woodstock", de Ang Lee, ou o já algumas vezes comentado aqui "Os Famosos e os Duendes da Morte", de Esmir Filho, que parte de um romance, de Ismael Caneppele, no qual o personagem é um jovem gaúcho do interior vidrado em Bob Dylan.
e as sessões para quem se interessar por "Beyond Ipanema", que recomendo, são:

Beyond Ipanema, trailer oficial com legendas


SAB (26/9) 23:59 Cine Odeon
SEG (28/9) 18:10 Est Gávea
SEG (28/9) 22:30 Est Gávea 1
QUI (1/10) 17:00 Cinema Nosso
SEX (2/10) 20:00 Ponto Cine

Um comentário:

Kico disse...

Ótimo post. O trailer e a entrevista aguçam a expectativa positiva sobre o filme.